Como ser cristão hoje?

Confira a entrevista exclusiva com o Pe. James Martin, consultor do Secretariado de Comunicação do Vaticano

Pe. James Martin, consultor do Secretariado de Comunicação do Vaticano

Ter um relacionamento autêntico com Deus, ouvir quem é diferente de nós, respeitar e reverenciar as diferenças, ser misericordioso com o planeta, com os outros e consigo mesmo. Esses são alguns pontos ressaltados por Pe. James Martin em sua entrevista exclusiva à revista Em Companhia e que podem nos ajudar a ser mais cristãos diante dos desafios do mundo moderno. 

Graduado pela Escola de Negócios (Wharton School of Business) da Universidade da Pensilvânia (Estado Unidos), em 1982, Pe. James Martin trabalhou por seis anos na área de Finanças. A insatisfação com o mundo corporativo o levou à aproximação mais profunda com a Igreja Católica, decidindo ingressar na Companhia de Jesus em 1988. Durante seus estudos para tornar-se padre, cursou Filosofia e Teologia e foi ordenado em 1999.

Atualmente, o jesuíta é editor da revista norte-americana America e tem em seu currículo mais de 10 livros publicados, entre eles, sucessos como A Sabedoria dos Jesuítas para (quase) Tudo e Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity (Construindo uma ponte: como a Igreja Católica e a Comunidade LGBT podem ter uma relação de respeito, compaixão e sensibilidade). 

Vale ressaltar que o tema dessa última obra tem sido também uma das causas arduamente defendidas pelo Pe. James Martin e que lhe rendeu, em 2016, o Prêmio Bridge Building do New Ways Ministry, uma homenagem às pessoas que promovem a discussão, a compreensão e a reconciliação entre as pessoas LGBT e a Igreja Católica. 

Entre suas várias atribuições, Pe. James Martin desempenha a função de consultor do Secretariado de Comunicação do Vaticano, nomeação feita pelo Papa Francisco, em 2017.

Confira a seguir, a entrevista:

1- Existe alguma marca que distingue o cristianismo hoje?

Karl Rahner, o teólogo jesuíta alemão, certa vez, escreveu que, no futuro, os cristãos ou serão místicos ou não serão cristãos. Minha sensação é que o padre Rahner estava nos lembrando da necessidade de ter um relacionamento autêntico com Deus em oração. E, como a Igreja enfrenta tantas crises que podem afastar as pessoas da religião – abuso sexual, divisões crescentes, preocupações financeiras  –, é importante que nosso relacionamento com Deus esteja no centro de nossa fé. Mas isso pode ser difícil para os católicos, visto que, às vezes, têm mais facilidade em falar sobre a Igreja do que sobre Cristo. Portanto, nosso relacionamento com Deus é fundamental.

2- Com o crescimento da extrema direita no mundo e a intensificação da crise socioambiental, quais são os desafios que o cristianismo deve enfrentar para cumprir sua missão?

Há muitos! Um óbvio e primordial, no Brasil e na Amazônia, serão os desafios que enfrentamos em termos de meio ambiente. Para ser franco, se não tivermos um planeta, toda a nossa conversa sobre evangelização não terá muito significado. Para mim, é interessante que o Papa Francisco, em seu curto pontificado, tenha se concentrado fortemente nas questões relativas ao meio ambiente em dois de seus principais documentos   Laudato Si e Querida Amazônia. É claro que esses documentos tratavam de muitos outros tópicos também: Laudato Si foi mais amplamente uma “encíclica social” e Querida Amazônia foi sobre a Igreja na região amazônica como um todo, não apenas com relação ao meio ambiente. Mas ambos se concentraram fortemente na necessidade de cuidar da criação.

Quanto à ascensão da extrema direita: aqueles que fazem parte desse grupo político, às vezes, podem prosperar e até mesmo promover a divisão e a discórdia na sociedade e até na Igreja. É, por isso, que Fratelli Tutti é tão importante. Se a mensagem de Laudato Si é “Tudo está conectado”, a mensagem de Fratelli Tutti é “Todos estão conectados”.

3- O que fazer para superar o ódio, a indiferença e o egoísmo, para sairmos das boas intenções e construir pontes, como pede o Papa Francisco? 

Como diz o Santo Padre em Fratelli Tutti e em muitos outros documentos, devemos primeiro querer “encontrar” o outro. E ele quer dizer isso literalmente: conhecer, ouvir e tornar-se amigo de outras pessoas, especialmente, aquelas que você pode ver, inicialmente, como “diferentes”. Claro, a outra importante técnica jesuíta é encontrada nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Seu “pressuposto”, que dá início aos Exercícios, significa assumir que as pessoas têm as melhores intenções. Como dizemos em inglês, significa dar às pessoas o “benefício da dúvida”. Muito disso é o trabalho árduo de ouvir. No meu próprio ministério com pessoas LGBT, é uma questão de convidar as pessoas que desconfiam daquela comunidade para, simplesmente, ouvirem suas experiências. Então, as pontes podem ser construídas.

4- Podemos construir um mundo mais justo e fraterno sem respeitar as diferenças?

Isso seria difícil! Deus criou um mundo cheio de diferenças, incluindo diferenças entre os seres humanos. A questão é: você pode não apenas respeitar, mas até mesmo reverenciar a pessoa de quem discorda? Parte disso é ver sua bondade inerente como filho amado de Deus.

5- Apesar das crises que a Igreja Católica enfrenta, o Papa Francisco não se fecha aos problemas da humanidade. É possível vislumbrar uma continuidade, seja num futuro papado, seja no episcopado atual que parece atônito?

Minha opinião (e, obviamente, não posso falar pelo Santo Padre) é que o pontificado do Papa Francisco está focado, principalmente, na misericórdia. Esse parece ser o princípio orientador de seu papado e perpassa todas as suas homilias, discursos e encíclicas. Misericórdia para o planeta, misericórdia uns para com os outros e misericórdia até para si mesmo.

 6- Os vários projetos dos quais o Papa é o criador e indutor  – por exemplo, a Economia de Francisco, o Pacto Educativo Global, a Declaração Conjunta do Papa Francisco e o Grande Imam de Al-Azhar e a defesa dos Refugiados – têm impacto, de alguma forma, no pensamento do establishment e das classes dominantes?

Espero que algumas de suas mensagens sobre a economia possam influenciar empresários e líderes empresariais católicos, mas não tenho certeza disso. Falando como alguém que estudou finanças e trabalhou no mundo dos negócios antes de tornar-se jesuíta, posso dizer que muitos líderes empresariais resistem a ouvir qualquer crítica ao sistema capitalista e à economia de livre mercado. Mas criticá-lo e tentar torná-lo mais atento às necessidades dos pobres faz parte da doutrina social católica desde o início. E. embora o sistema de livre mercado seja eficiente, ele não é perfeito. Basta olhar para os milhões que vivem na pobreza, mesmo nos países capitalistas, para entender isso. Minha sensação é que, em Laudato Si, no entanto, o Papa teve mais sucesso em ajudar a mudar a conversa. Foi o primeiro olhar espiritual sistemático sobre a necessidade de cuidar da criação, e acho que foi extremamente bem-recebido, ou, pelo menos, teve um impacto duradouro na conversa.

7- Como você vê o compromisso da Companhia de Jesus com a missão da Igreja? Como podemos ser mais criativos?

O compromisso da Companhia de Jesus com a missão da Igreja é absoluto! Eles têm a mesma missão: pregar o Evangelho. Quanto a ser mais criativo, acho que as Preferências Apostólicas Universais da Companhia são um grande passo à frente. Elas são brilhantes, a meu ver, no sentido de que podem ser aplicadas a todos os ministérios da Ordem religiosa. Então, elas são, de certa forma, um refinamento da missão de pregar o Evangelho, pois o Evangelho precisa ser pregado hoje.

Essa entrevista foi publicada na 72ª Edição do informativo Em Companhia (Dezembro. 2020). Quer ler a edição completa? Então, clique aqui!