GUERREIRAS POR UM FUTURO MELHOR

GUERREIRAS POR UM FUTURO MELHOR

Nascidas em estados do Nordeste, Valdenice José Raimundo e Vilma Reis são donas de histórias de vida e de luta com potência para inspirar mulheres por todo o Brasil. Conheça, a seguir, um pouco mais da biografia dessas duas ativistas pelos direitos humanos e das populações marginalizadas:

 

Valdenice José Raimundo

Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Valdenice José Raimundo é pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), onde é líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Raça, Gênero e Políticas Públicas. Em seu vasto currículo, destacam-se ainda dois importantes reconhecimentos: o prêmio Mulheres Negras Contam sua História, conferido pelas Secretarias de Políticas para as Mulheres (SPM) e de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) do governo federal, e a medalha Heroínas de Tejucupapo, concedida pela Ordem dos Advogados de Pernambuco (OAB-PE).

Valdenice nasceu em Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco. “É uma cidade com eventos históricos importantes a exemplo da Batalha do Monte das Tabocas, marco decisivo na luta pela defesa das terras brasileiras e pela expulsão dos invasores holandeses em 1645”, ressalta orgulhosa.

Orgulho que se estende à família numerosa – “somos cinco irmãos e três irmãs” – que está vivendo o luto pela perda recente do pai, Valdemar José Raimundo. “Estamos aprendendo a lidar com a saudade do amor que ele plantou em nós”, revela Valdenice. À mãe, Teresa José de Souza Raimundo, a professora dedica: “Uma guerreira amorosa e hospitaleira”.

Valdenice lembra que a infância foi tranquila e bem-vivida, apesar das restrições próprias de uma família pobre. Para comprar os materiais necessários para estudar, precisou trabalhar no início da adolescência. “Aprender sempre me encantou. E, por essa razão, me lancei para o mundo desafiador dos estudos. Desafiador porque sempre tive que estudar e trabalhar, exceto no mestrado e no doutorado que fiz com bolsas de estudos”, conta a professora, que fez a graduação, o mestrado, o doutorado e está finalizando o pós-doutorado em Serviço Social. “Identifico-me muito com o projeto profissional do Serviço Social. Sou professora da graduação em Serviço Social e da Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Ser professora faz parte da minha constituição como pessoa humana”, ela ressalta.

O encontro com o Movimento Negro se deu em meados dos anos 1990 e, segundo Valdenice afirma, foi um momento libertador. “A partir do Movimento Negro, encontrei sentido para a minha existência. A descoberta da minha negritude foi algo que me causou dor, mas também me fortaleceu muito. Foi dolorosa porque me deparei com uma história que me foi negada na escola, na igreja… Foi fortalecedora porque o encontro com as nossas raízes é muito poderoso”, ela revela. Entre os principais aprendizados dessa luta, a professora destaca:

“1. A invisibilidade da história da África e a forma distorcida como é contada a história do/a negro/a no Brasil com o objetivo de cumprir uma função que precisa ser questionada, que é a manutenção dos privilégios das pessoas brancas pertencentes à classe dominante, aqueles que detêm o poder político e econômico.

  1. O contato com a história que não sataniza a cultura africana, que apresenta os heróis negros e as heroínas negras, que esclarece que a população negra nunca aceitou passivamente o processo de escravização. Tudo isso liberta, fortalece a autoestima e nos lança para a luta e para o sonho.
  2. A luta contra o racismo não é um dever apenas da população negra, mas de todos/as que acreditam e defendem a justiça.
  3. Por fim, acrescento a necessidade de não desistir da luta, visando a que as gerações futuras não sejam privadas de uma existência vivida com dignidade, não sejam suspeitas devido à cor da sua pele, não tenham de morrer ainda crianças.”

 

 

Vilma Reis

Militante feminista desde muito jovem, Vilma Reis é ativista do Movimento de Mulheres Negras do Brasil, co-fundadora da Mahin Organização de Mulheres Negras e, desde 2019, dedica-se à construção da Coalizão Negra por Direitos no Brasil. Socióloga, é mestra em Ciências Sociais, doutoranda em Estudos Africanos na PosAfro-Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora associada ao Instituto Ceafro (Iceafro). De 2015 a 2019, ela foi ouvidora-geral da Defensoria Pública da Bahia e, de 2018 a 2019, presidenta do Conselho Nacional de Ouvidorias Externas das Defensorias Públicas no Brasil.

Nascida em Salvador, Vilma cresceu entre a capital baiana e a cidade de Nazaré das Farinhas, no Recôncavo da Bahia. “Sou uma mulher do candomblé, minha família toda tem sua história ligada ao candomblé”, ela conta, acrescentando: “Minha avó nasceu ainda no engenho, em 6 de janeiro de 1911, por isso, nós somos reis, como diz o catolicismo popular. Imagine que, em 1911, a escravidão ainda estava em carne viva no Recôncavo da Bahia. Ela se casou aos 13 anos e teve 13 filhos, sendo meu pai o mais velho deles, nascido em 1926. Foi essa mulher tão batalhadora e aguerrida que me criou até os meus 13 anos”.

Nesse contexto de mulheres negras fortes, decididas e posicionadas que Vilma cresceu. “Imagine, minha vó, em plenos anos 1970, se filiou ao MDB, que era o partido que dava guarda-chuva às lutas da sociedade brasileira durante a ditadura militar”, afirma a ativista, lembrando ainda que o pai precisou deixar a cidade em razão da luta sindical dos ferroviários. “Minha avó sempre contava: ‘seu pai, seus tios e seu tio Neri andaram com o lençol vermelho pedindo dinheiro para socorrer as famílias de outros ferroviários que passaram mais de seis meses sem receber salário e, depois disso, eles tiveram de ir embora’. Estávamos na ditadura e meu pai foi perseguido por muitos anos, por causa desse ato em Nazaré das Farinhas”, ela conta.

De volta a Salvador aos 13 anos, Vilma foi estudar no Colégio Estadual Edson Tenório de Albuquerque, outra escola política em sua vida. “No início dos anos 1980, aquela escola em Paripe, quase o último bairro do subúrbio ferroviário de Salvador, já tinha formação de plateia, visita a museus, ensino de línguas estrangeiras. Essa escola foi muito decisiva em minha vida”, ela conta.

Em 1985, aos 15 anos, já morando na Cidade Baixa de Salvador, Vilma foi estudar na Escola Estadual Presciliano Silva, onde manteve contato com o Movimento em Defesa da Escola Pública. Ela conta que era um movimento intenso, potente, fantástico e que serviu como sua porta de entrada para o movimento estudantil. Uma caminhada que tem se consolidado em 35 anos de luta intensa.

Na passagem dos anos 1980 para os 1990, Vilma descobriu o Movimento de Mulheres Negras. Ela foi cursar o ensino médio no Colégio Central da Bahia, maior escola pública da Bahia, por onde passaram nomes que se tornariam conhecidos nacionalmente, como Glauber Rocha, Carlos Mariglhella e Antônio Carlos Magalhães, entre outros. “Quando fui para lá, em 1989, tinha 7.900  estudantes e eu, no ano seguinte, me tornei presidenta do grêmio estudantil do colégio”, revela, acrescentando: “Era um tempo de luta, de muita batalha contra as arbitrariedades em Salvador e em nosso estado. Era também um tempo de luta pelo passe estudantil, pela meia passagem de ônibus, pela meia entrada nos cinemas… E todas essas lutas começaram no Colégio Central, que foi uma escola política muito importante”.

Em 1990, junto com Kátia Melo e Cristina Rodrigues (que haviam feito a Escola Criativa do Olodum), Jussara Santana (fundadora do Aspiral do Reggae) e outras mulheres, Vilma fundou o Coletivo de Mulheres Negras da Bahia. Um ano após sua criação, o movimento foi responsável pela organização do 2º Encontro de Mulheres Negras do Brasil. “Foi um encontro fantástico, com muitos desdobramentos políticos para o que seria o futuro dos movimentos de mulheres no Brasil e, particularmente, para o feminismo negro”, ela conta.

Em 1993, além da aprovação no vestibular para Letras com língua inglesa, Vilma era bolsista da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos (ACBEU). “Éramos um grupo de 12 pessoas negras que, pela primeira vez, estavam ali ultrapassando uma barreira importante”, relembra. Seis meses depois, ganhou uma bolsa de uma ONG de mulheres na Áustria e passou um ano e meio em Viena, onde estudou alemão e fez um curso focado em comunicação e gênero.

De volta ao Brasil, deu início à graduação em Ciência Socias na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, ao final do curso, ganhou uma bolsa para fazer especialização na Universidade de Howard, em Washington, D.C. (Estados Unidos). Fundada em 1867, a instituição – uma das mais prestigiosas entre as entidades de ensino superior destinadas a alunos negros – tem entre seus antigos alunos a atriz brasileira Ruth de Souza, a senadora Kamala Harris, eleita vice-presidente dos EUA, e a escritora Toni Morrison, vencedora do prêmio Nobel de Literatura e Pulitzer. “Foi uma experiência muito importante para mim e, ao retornar ao Brasil, eu sabia que teríamos de dar conta de questões muito grandes do feminismo”, diz Vilma.

É importante ressaltar que, um ano antes de viajar para Washington, Vilma e outras ativistas organizaram o 12º Encontro Nacional Feminista, na Bahia. O evento foi um divisor de águas para o movimento no Brasil por unir feministas do mundo acadêmico e do movimento de mulheres negras. “Nós reunimos 722 mulheres naquele encontro, com representações de todos os estados brasileiros e 25 internacionais. Por meio dessa luta, fizemos com que muitas organizações internacionais olhassem para o que estava acontecendo com o movimento de mulheres negras no Brasil”, lembra Vilma.