Juventude em tempo de sonhos e opções


Em agosto, a Igreja celebra o mês vocacional e incentiva as juventudes a refletirem sobre as realizações possíveis por meio da concretização das diversas vocações. Ao contrário do que pode parecer ao senso comum, o discernimento vocacional não é direcionado somente aos jovens que desejam a vida sacerdotal como padres, irmãos ou freiras. Assunto transversal, essa forma de discernimento pode estar presente nos mais variados aspectos e auxiliar a caminhada dos cristãos em muitos momentos.

No contexto atual da Igreja no mundo, o pontificado de Francisco está em constante diálogo com a juventude. “CRISTO VIVE: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida”. Assim, o Papa escolheu iniciar a Exortação Apostólica Christus vivit, um fruto do Sínodo dedicado à juventude.

Em alguns trechos dessa Exortação Apostólica, Francisco apresenta e reitera a importância do Projeto de Vida na fase de desenvolvimento da personalidade. Para ele, “Os jovens precisam ser respeitados na sua liberdade, mas necessitam também ser acompanhados. A família deveria ser o primeiro espaço de acompanhamento. A pastoral juvenil propõe um Projeto de Vida baseado em Cristo: a edificação duma casa, duma família construída sobre a rocha (cf. Mt 7, 24-25)”. 

O Pontífice reconhece que a juventude está marcada por sonhos que vão se formando, relações que adquirem consistência sempre maior e tentativas e experiências. Para ele, são justamente essas características que constroem, gradualmente, um Projeto de Vida. “[…] os jovens são chamados a lançar-se para diante, mas sem cortar com as raízes, a construir autonomia mas não sozinhos” (137), afirma.

Em sintonia com o magistério da Igreja, a Companhia de Jesus também reserva um espaço prioritário para a juventude em suas Preferências Apostólicas Universais. “Acompanhar os jovens na criação de um futuro cheio de esperança” é a terceira preferência listada na carta que marca o “modo de proceder” dos jesuítas, coerentemente às necessidades atuais do mundo e da Igreja, até 2029.

Por meio das Preferências Apostólicas Universais, a Companhia de Jesus se propôs a deixar-se guiar pelos jovens, com suas perspectivas, pois são eles os que podem ajudar a compreender melhor a mudança de época e sua novidade cheia de esperança; criar e manter espaços abertos aos jovens na sociedade e na Igreja por meio das obras apostólicas; acompanhar os jovens, com coerência de vida, profundidade espiritual, abertura à partilha da vida-missão.

Atenta aos sinais dos tempos desde a sua fundação, a Ordem criada por Inácio de Loyola tem a educação como um de seus apostolados. A pedagogia inaciana tem como objetivo uma educação atenta à complexidade dos jovens, colaborando na formação de sujeitos comprometidos com o bem comum e com a transformação social. Além disso, empenha-se no estímulo ao desenvolvimento das potencialidades dos alunos para que eles exerçam sua liberdade e atuem com autonomia no serviço ao próximo, à sociedade e ao meio ambiente.

Processo de autoconhecimento

O Projeto de Vida incentivado pela Companhia é, entre outras coisas, um motor de reflexão que considera a autoconsciência e a realização pessoal dos jovens, os serviços que podem prestar aos demais e a sua atuação na promoção da defesa da vida. Para Márcia Rocha Ferreira, responsável pelo Espaço MAGIS Teresina (PI) e especialista em juventude, é interessante a concepção do Projeto como “aquele elemento que nos ajuda a lançar-nos à frente; que nos ajuda a projetar os próximos passos, os sonhos e como podemos fazer para pô-los em prática, identificando, nas trajetórias pessoais, os recursos disponíveis e as limitações presentes”.

Para Márcia, não há um modelo definitivo de Projeto de Vida, pois trata-se de um processo sempre inacabado e extremamente diverso, já que são consideradas as diferentes realidades. “O processo de construção é marcado por um espaço de reflexão em torno da própria vida na qual os jovens são convidados a se aprofundar no autoconhecimento e na elucidação das relações pessoais – considerando as dificuldades e possibilidades de realização –, com familiares, parceiros (as), amigos, colegas de trabalho e com Deus”, conta. Em todas essas dimensões, os jovens são orientados a identificar o que norteia suas vidas e o que os ajuda a fazer as escolhas que trazem concretude aos planos.

Entre os grandes desafios na realização do trabalho, a especialista destaca a promoção de um diálogo intergeracional “de forma que os jovens estejam abertos à contribuição com a vida das demais gerações”. O estabelecimento de um modo de agir que “contemple as diversas expressões juvenis”, a desconstrução, nos espaços de convívio, dos “diversos estereótipos que há sobre a juventude”, além de acompanhamento nas “diversas dimensões de suas trajetórias”.

Para Eduardo Carvalho da Silva, coordenador do Espaço MAGIS Belo Horizonte (MG) e jesuíta em formação, o Projeto é “uma boa ferramenta metodológica que ajuda a acompanhar os jovens em seus processos. Pelo mergulho que cada um faz em suas vidas para narrar as próprias histórias, muitos dos jovens lançam luzes em dimensões de que, até então, não se davam conta”. Ele percebe, como aspecto interessante na atividade, que a busca por soluções e ressignificações das realidades traz sempre algo novo.

Voluntariado e Inserção Sociocultural

Entre os cinco eixos de articulação do programa MAGIS, está o Voluntariado e Inserção Sociocultural. Para que a proposta formativa do programa seja possibilitada de maneira integral, busca-se o trabalho em conjunto com os demais eixos, que são: Exercícios Espirituais, Justiça Socioambiental, Juventude e  Vocações e Pedagogia da formação.

Lucas Maurício, jesuíta em formação e coordenador do eixo Voluntariado e Inserção Sociocultural, salienta que o diálogo do Programa MAGIS com as Preferências Apostólicas Universais da Companhia de Jesus é transversal, não se limitando apenas à menção direta aos jovens. Para ele, o eixo Voluntariado e Inserção Sociocultural dialoga com as preferências apostólicas “à medida que se soma ao Serviço da Fé e à promoção da justiça, enquanto busca estabelecer pontes e encarar os desafios da atualidade”.

Exercícios Espirituais na juventude

Com um lugar privilegiado nos processos de acompanhamento na formação da juventude, estão os Exercícios Espirituais em etapas para Jovens (EEJ) e os Exercícios na Vida Cotidiana (EVC). A adaptação por partes da experiência proposta por Inácio de Loyola, especialmente para os jovens, é um modo de apresentar-lhes a espiritualidade.

O documento Vocações Jesuítas – discernindo o Projeto de Vida nos diz que os Exercícios Espirituais são “uma escola de oração na qual cada um é convidado a descobrir a vontade de Deus e elaborar seu projeto à luz do Evangelho. O itinerário espiritual inaciano é um caminho a percorrer, uma maneira vital de dispor-se inteiramente à ação do Espírito, que transforma e liberta o coração de todo desejo desordenado, para buscar e realizar a vocação para a qual todo o ser humano é criado, louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor, e, assim, salvar-se (EE, 23)”.

Na visão de Guilherme Augusto Siebeneichler, participante do Espaço Magis Manresa (PR), os EE permitem, antes de tudo, “ordenar afetos desordenados. Diante desse encontro pessoal com Cristo, nos é possibilitado tomar a vida nas próprias mãos de forma orante, percebendo os sinais da presença afetiva de Deus em nosso dia a dia, a experiência de ser amado e, mediante isso, ressignificar nossa história com base nessa experiência de amor”.

Acompanhamento de jovens

Há 20 anos, Ir. Francesca Carotenuto, da Congregação das Irmãs Apostolinas, viu sua história se modificar quando deparou-se com o anúncio de que toda a vida é uma vocação e cada pessoa é amada pessoalmente por Deus. Sentiu-se chamada a propagar esse amor por meio de suas escolhas e mudou seu destino: de bancária, tornou-se freira.

Ela considera que o trabalho com a juventude é uma consequência de sua vocação: “foi fundamental sentir e saborear que não estava sozinha, a vida como uma proposta de contínuo diálogo e ‘parceria’ que Deus faz a cada pessoa.  Dali em diante, procurei fazer com que outros jovens conhecessem aquela perspectiva diferente, tão importante e revolucionária para mim”.

Em tempos de sobrecarga de informação, a irmã italiana entende que o silêncio é uma maneira da espiritualidade inaciana dialogar com a juventude. “De imediato, é difícil – às vezes, assustador – para os jovens, em um tempo de oração, ou de retiro, experimentar o silêncio, aceitar essa proximidade consigo e com Deus. Dá vertigens, uma sensação de vazio a ser preenchido, vontade de fugir, de refugiar-se no celular, na música ou em uma boa conversa”, relata. Ainda assim, ela conclui que, quando experimentado, o silêncio torna-se uma dimensão fundamental “porque leva ao encontro com o Mistério da própria realidade mais íntima onde mora Deus. A Alteridade que, como dizia são Tomás de Aquino, funda a minha verdadeira identidade”.

Plano de Candidatos

Assim como Santo Inácio em seu caminho de reflexão e busca pela realização das vontades de Deus, o jesuíta irmão Bira Costa pontua que todas as atividades do Programa MAGIS devem levar o jovem a se perguntar: para que fui criado? O que fiz, o que faço, o que farei por Cristo?

Ir. Bira, referência para o trabalho de Juventude e Vocações Centro Oeste e coordenador do Plano de Candidatos ao Noviciado, afirma que vários jesuítas, espalhados pelo Brasil, estão atentos e disponíveis aos jovens rapazes que se sentem inquietos vocacionalmente e em busca de responder ao chamado de Deus. “Muitos desses jovens se perguntam se seu projeto de vida é por meio da Companhia de Jesus, dos jesuítas”, destaca o jesuíta.

O processo inicial para o jovem chegar a participar do Plano de Candidatos começa no acompanhamento personalizado com um jesuíta por meio de partilhas de sua caminhada, motivações, dúvidas e desejos. Depois desse primeiro contato, é feito o convite para que o interessado participe do Grupo de Acompanhamento Vocacional Inaciano (GAVI), no qual, segundo Ir. Bira, o jovem pode encontrar outros rapazes que estão buscando responder a Deus da mesma forma. “Nos GAVIs, apresentamos a Companhia de Jesus e os jesuítas: padres e irmãos, bem como a nossa missão, nosso modo de ser e nosso carisma. Nesses encontros, são criados momentos de oração pessoal, eucaristia e partilhas de como Nosso Senhor vem conduzindo cada jovem”, conta.

12 conselhos do Papa Francisco para os jovens

Em setembro de 2019, em um encontro inter-religioso em Maputo, capital de Moçambique (África), o Santo Padre deixou uma série de orientações e palavras de ânimo aos jovens:

  1. Vós sois importantes! Precisais de o saber, precisais de acreditar nisto: vós sois importantes! Mas com humildade;
  2. Alegria partilhada que reconcilia e se torna o melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que querem dividir, fragmentar ou contrapor;
  3. Se quiseres chegar depressa, caminha sozinho; se quiseres chegar longe, vai acompanhado;
  4. Sonhai com os outros, nunca contra os outros; sonhai como sonhastes e preparastes este encontro: todos unidos e sem barreiras;
  5. Inimiga dos sonhos e do compromisso, não é apenas a resignação, mas também a ansiedade;
  6. Não deixeis que vos roubem a alegria. Não deixeis de cantar e expressar-vos de acordo com todo o bem que aprendestes das vossas tradições;
  7. Não é bom dar-se por vencido! Não caiamos no erro de parar porque há coisas que não correram bem à primeira;
  8. Sede capazes de criar a amizade social. Como é importante não esquecer que a inimizade social destrói. O mundo destrói-se pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra;
  9. Os sonhos mais belos conquistam-se com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas;
  10. A paz é um processo que também vós sois chamados a fazer avançar, estendendo sempre as vossas mãos especialmente àqueles que estão a passar momentos difíceis;
  11. Procurai crescer na amizade também com aqueles que pensam de maneira diferente, para que a solidariedade cresça entre vós e se torne na melhor arma para transformar a história;
  12. Proteger a nossa Casa Comum. Aqui tendes um belo sonho para cultivar juntos, como família moçambicana, uma bela luta que pode ajudar-vos a permanecer unidos.

 

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