Como, em tempos incertos, buscar e encontrar a Deus em todas as coisas?


Pe. Geraldo De Mori, SJ
Reitor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)

Desde que foi declarada a pandemia da covid-19, toda a humanidade vive um tempo de profundas incertezas, não só porque desconhecemos quando será produzida uma vacina eficaz contra o novo coronavírus, mas também por causa dos impactos econômicos e sociais provocados por essa pandemia. O risco e a precariedade nos rondam e, além dos diversos recursos de proteção, buscamos encontrar e dar sentido ao que vivemos, recorrendo às fontes que alimentam o mais profundo de nosso ser e existir. A fé cristã oferece muitos recursos de sua rica tradição espiritual. Retomaremos, a seguir, três elementos da espiritualidade inaciana que podem nos ajudar na travessia deste tempo. 

“Bastariam 15 minutos”

É conhecida a resposta de Inácio de Loyola à pergunta: o que faria se a Companhia de Jesus fosse suprimida? “Bastariam, dizia ele, quinze minutos de exame para me apaziguar”. Resposta similar deu o jovem Luís Gonzaga quando lhe perguntaram o que faria se soubesse ter poucos dias de vida? “Nada, dizia ele, continuaria fazendo o que faço”. Na primeira situação, está em risco o resultado de um longo caminho espiritual, iniciado com a ferida na Batalha de Pamplona, passado pela convalescença e conversão em Loyola (Espanha), aprofundado no tempo em que esteve em Manresa (Espanha), desdobrado nos anos de estudo em Barcelona, Alcalá e Salamanca (Espanha) e em Paris (França), culminado no reconhecimento da nova ordem em Roma (Itália). Na segunda situação, a própria existência estava em risco. A obra de uma vida e a própria vida não estão no mesmo patamar, mas remetem àquilo pelo qual tudo se apostou, que, segundo a 1ª Anotação para se fazer os Exercícios Espirituais, corresponde a “procurar e encontrar a vontade divina, na disposição da vida para a salvação da alma” (EE, 1). Nos dois casos, temos uma resposta semelhante, que tem sua fonte numa mesma experiência: ter encontrado o único necessário, a vontade divina que oferece a salvação.

Para encontrar a vontade divina, ainda segundo a 1ª Anotação dos Exercícios, é preciso “afastar de si todas as afeições desordenadas” (EE, 1). Os “exercícios espirituais”, compreendidos como “qualquer modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal e mentalmente, e outras operações espirituais” (EE 1), preparam e dispõem “a alma, para tirar de si todas as afeições desordenadas” (EE 1). Inácio de Loyola e Luís Gonzaga, diante do que parecia o mais importante para suas vidas, mostram ter encontrado o único necessário e estarem livres dos afetos desordenados.

Este tempo de pandemia tem sido favorável para nos colocarmos essa pergunta radical: o que é a vontade divina para a salvação de minha alma? Em sua visita à família de Marta, Lázaro e Maria, enquanto Marta se desdobrava para dar conta do serviço na acolhida do Mestre, Maria colocava-se a seus pés para escutá-lo. Interrogado sobre essa atitude da irmã, Jesus diz a Marta: “Maria escolheu a melhor parte” (Lc 10,38-42). Ao jovem que lhe perguntou o que deveria fazer para ganhar a vida eterna, Jesus remete-o, inicialmente, aos mandamentos e, em seguida, ao sabê-lo cumpridor da lei, lhe pede que venda tudo, dê o dinheiro aos pobres e, depois, o siga (Mc 10,17-30). Para quem vive dos recursos dos Exercícios, as incertezas e temores deste tempo são uma boa ocasião para fazer uma espécie de balanço e se perguntar: encontrei a vontade de Deus para minha vida? Estou livre das afeições desordenadas que me impedem de assumir essa vontade?

“[…]é necessário fazer-nos indiferentes […] de tal maneira que não queiramos […] mais saúde que doença […] vida longa que breve[…]” (EE 23) 

Encontrar a vontade divina (o único necessário), por meio da qual salvamos nossa “alma” (temos uma vida plenamente realizada), corresponde, segundo o Princípio e fundamento, a “louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor” (EE 23). Descobrir esse fim para o qual fomos criados significa, ainda segundo a continuidade do mesmo texto, não inverter a relação entre fim e meios. Ao único necessário devem submeter-se “as outras coisas sobre a face da terra”, criadas para ajudar o ser humano a realizar o fim para o qual foi criado. Daí a necessidade de usar delas “tanto quanto” nos ajudam a alcançar o fim, o que implica o caminho do “tornar-nos indiferentes” a todas elas (EE 23). 

A “indiferença” está relacionada com a ordenação dos afetos, que, no Princípio e fundamento, remete a dimensões que parecem essenciais para uma vida plenamente realizada: saúde, riqueza, honra e vida longa. Na tradição bíblica, a bênção é identificada, muitas vezes, com essas dimensões (Dt 28,1-3; Sl 128). Ao escolhê-las, Inácio nos recorda que elas são o lugar a partir do qual nosso desejo e nosso afeto se definem, levando-nos à salvação ou à perdição. Por isso, ele conclui o texto indicando que devemos “desejar e escolher” somente “o que mais nos conduz ao fim para o qual fomos criados” (EE 23). 

O tempo no qual vivemos nos interroga, principalmente, sobre duas dessas dimensões: saúde e vida longa. De fato, nos últimos seis meses, o mundo todo gira ao redor daquilo que põe em risco nossa “saúde” e, ao mesmo tempo, ameaça a possibilidade de uma “vida longa”. A que nos chama esse apelo à indiferença, próprio da espiritualidade inaciana? Certamente, somos chamados a não negligenciar os cuidados com nossa saúde e com a daqueles com os quais nos relacionamos. Tampouco a deixar de desejar uma vida longa, para nós e para os que amamos. O buscar e o desejar o “que mais conduz ao fim para o qual fomos criados” pode significar, neste tempo, o questionar-se sobre o que fazemos com este bem que nos foi dado, a vida. Como o valorizamos? Os testemunhos de pessoas contaminadas podem nos ajudar a dar conta desse bem precioso. Um dos mais conhecidos é o daquele senhor que teve de pagar milhares de dólares pelo uso de respiradores e que se deu conta de ter vivido toda uma vida sem nunca ter agradecido a Deus pelo ar que respirou sem pagar. 

“Conhecimento interno de tantos bens recebidos […] para em tudo amar e servir a sua Divina Majestade” (EE 233)

Na Contemplação para alcançar amor, com a qual se concluem os Exercícios, após a Nota, a Oração e os dois Preâmbulos, são propostos quatro pontos: o primeiro, um convite a fazer memória dos benefícios recebidos na criação, na redenção e nos dons particulares; o segundo, uma consideração sobre como Deus habita nas criaturas; o terceiro, outra consideração sobre como Deus trabalha e age por minha causa em todas as coisas criadas; o quarto, um olhar como todos os bens e dons descem do alto. Esses pontos resumem o conjunto da experiência e são uma síntese da mística inaciana. Eles também podem ajudar a viver na fé e na esperança nestes tempos tão difíceis pelo qual passamos. 

Primeiramente, exercitando a memória agradecida pelos bens recebidos. Estar mais em casa é um convite a entrar no quarto, como nos convida Jesus, para orar ao Pai que está em segredo” (Mt 6,6), e nossa oração tem de ser de ação de graças. Mas, além desse exercício de memória, é preciso descobrir como Deus habita sua criação, mesmo ferida e sofrida, nela trabalhando e agindo, inclusive, por meio de mim. Finalmente, esse convite deve culminar no reconhecimento de que tudo é dom. Tudo vem de Deus e a ele retorna. Que esse exercício possa se traduzir numa contínua resposta de vida: “Tomai, Senhor, e recebei […]. Dai-me somente o vosso amor e graça, que esta me basta” (EE 234).