A espiritualidade inaciana, uma ajuda para viver a realidade atual


Pe. José Laércio Lima, SJ
Secretário para Colaboração, Fé e Espiritualidade da Província dos Jesuítas do Brasil

A espiritualidade sempre será um caminho que nos ajuda a ter intimidade com Deus. Nos dias atuais, precisamos ter lucidez para acolher o novo que aí está. Ainda não sabemos como será o pós-pandemia. Temos mais incertezas do que certezas. Porém, para quem tem fé e deseja, como Santo Inácio, tirar proveito desta situação, é necessário enxergá-la não como oportunismo, mas como oportunidade para considerar, meditar e contemplar a realidade, trazendo-a para mais perto, para a sua oração e suas decisões no cotidiano. Com Jesus, visitaremos, tocaremos e estaremos inseridos neste cotidiano tão duro e sofrido. Aí está um caminho que podemos fazer juntos, se quisermos nos envolver, ajudar a superar e a encontrar caminhos como fruto espiritual da nossa oração e da nossa fé cristã, que, mais do que nunca, nos convida a sermos uma Igreja em saída, um povo de Deus a caminho. 

Considerar a realidade 

Consideremos, aqui, como fomos criados por Deus e qual o fim da nossa vida: “Louvar, servir e reverenciar a Deus Nosso Senhor e mediante isto salvar a sua alma. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem e para o ajudarem na consecução do fim para o qual é criado” (EE 23). Em outras palavras, tudo o que temos e somos vem de Deus como puro amor. O seu desejo é que não nos percamos, mas, sim, que cheguemos e alcancemos um único fim, aquele para o qual fomos criados.

Consideremos, então, a obra da criação de Deus hoje. Porém, com o mundo fechado em si mesmo, as pessoas envolvidas em seus projetos gananciosos e egoístas são incapazes de olhar para si mesmas e para os demais. A velocidade, a ansiedade e a produtividade tomam conta da mente e do coração de muitos. Ao considerar essa realidade aplastada pela dureza do cotidiano “seco” sem Deus, vemos que aquilo que deveria ser uma fonte de água viva torna-se, assim, um deserto cruel e violento para tantos. O cotidiano passou a ser o mistério a ser decifrado como a Grande Esfinge: “decifra-me ou devoro-te”.

Podemos considerar também a realidade da classe média ou da classe média alta, que puderam se fechar, isolar-se literalmente em suas vidas confortáveis e redescobrir aquilo que já haviam perdido. Por exemplo, reaprender a cozinhar, a tirar a mesa, a conversar à mesa, a limpar a casa ou a lavar roupas, isso naquelas residências onde as secretárias não ficaram isoladas com os seus patrões. Ou seja, cinco meses isoladas servindo aos seus “senhores” catolicamente, enquanto eles sentiam falta da eucaristia.

Se desejarmos, podemos considerar a vida da grande multidão que, sem água, sem material de higiene e de proteção, teve que se reinventar para não perder a vida, vivendo em casas com um ou dois cômodos, seis, oito pessoas. Estavam quase mais seguros quando saiam para buscar sopa, ou receber o auxílio emergencial.

Consideremos tudo isso: como a criação desvirtuada quer ser o criador; como decide pela desordem e pelo caos em nome do bem-estar de alguns, em detrimento de milhões. Tendo considerado toda essa criação em colapso, poderemos encontrar, aqui, material para a nossa meditação, que nos levará a entrar mais a fundo nessa realidade ferida de morte. 

Meditar a realidade

Pedindo a graça de que todas as nossas intenções, ações e operações sejam ordenadas puramente ao serviço e louvor de Sua Divina Majestade (EE 46), vamos mais a fundo, “considerar em ver com o olhar da imaginação” toda a humanidade afetada e ferida pelo vírus pandêmico. Imaginar também, aqui, outro vírus que afeta a humanidade, o vírus do egoísmo. Como sofrem, “encarcerados neste corpo corruptível e todo o composto humano neste vale, como que desterrado entre animais irracionais” (EE 48), estes últimos, inclusive, começam a regressar às cidades e a lugares que, antes, seria impossível pela presença de tanta gente e turistas.

O caminho será pedir perdão pela forma como vivemos e estamos nos relacionando com o ser humano e com a natureza; pelo modo como olhamos distantes a realidade e não nos envolvemos com ela, a fim de cuidar das feridas e vidas.  Pedir “o que quero e desejo” será uma oportunidade para saber se, com a pandemia, algo mudou em nosso coração, se nele cabem nossos irmãos e nossas irmãs. Será que, naquilo que quero e desejo, há espaço para a coletividade? Há espaço para a criação – casa comum?

A espiritualidade pode, em tempos de pandemia, nos levar a um caminho de conversão, de saída do nosso “próprio amor, querer e interesse”. Porém, se observarmos, nem sempre a vida é tão simples, pois, dentro do nosso projeto pessoal, há também um projeto de fora que se hospeda nele. Tantas pessoas abriram os olhos para ver como suas vidas estavam desfocadas. Algumas fizeram planos, idealizaram mudanças de um possível outro mundo, isto é, um “novo normal”. No entanto, bastaram poucos dias de reabertura e vimos o “novo normal” apenas pelo uso da máscara. 

Contemplar a realidade

É importante fazer a nossa composição de lugar, que é a realidade do mundo ferido pela pandemia e, ao mesmo tempo, ferido por outras “pandemias” estruturais, como nos lembrou Papa Francisco em sua homilia na Casa Santa Marta, dizendo que, nos primeiros quatro meses do ano, morreram 3,5 milhões de pessoas de fome. Ele ainda afirmou que há outras pandemias: a da falta de escolas para crianças e a da guerra. No Brasil, passamos das 70 mil mortes oficiais pelo novo coronavírus. A maior tragédia é que banalizamos a vida e nos acostumamos com as mortes. 

Nesta contemplação, devemos pedir a graça de não sermos surdos ao chamado de Nosso Senhor, “mas sermos prontos e diligentes para cumprir a Sua santíssima vontade[…]” (EE 91). Assim, poderemos, jesuítas e colaboradores, inserirmo-nos na realidade, sentir, envolver-nos, escutar os gritos dos esquecidos e dos últimos, invisíveis nos dias de hoje. A pandemia apenas tirou a poeira das injustiças, daquelas a que já nos acostumamos. Por isso, a presença dos jesuítas deve ser ir, cada vez mais, para as fronteiras que pedem mais envolvimento com a vida. Para isso, é preciso eliminar as distâncias sociais; continuar investindo e acreditando que a “revolução da ternura”, tão querida pelo Papa Francisco, deve acontecer se tirarmos também a poeira dos nossos sentidos. Será preciso convertê-los ao cristianismo que brota dos Evangelhos.

Quanto aos colaboradores, poderão, de fato, “colaborar” se conseguirem, com base na riqueza espiritual inaciana, continuar desejando fazer “tudo para a maior glória de Deus” – “que o homem viva” (Santo Irineu). Nunca necessitamos tanto de mais compromisso com a vida dos mais fracos e necessitados. Juntos, jesuítas e colaboradores, responderemos às perguntas mais reveladoras das nossas vidas: estive doente, nu, com fome, sede, e vocês o que fizeram? 

Viver em tempos de pandemia exige de nós a lucidez que nos coloca diretamente na vida dos sofredores. É necessário considerar, meditar e contemplar toda a realidade com o olhar do ressuscitado, sempre levando a esperança e a certeza de que, mesmo depois das trevas desta noite escura que estamos vivendo, há uma luz que brilha para nós. Deus sempre está gestando vida, mesmo que os nossos sentidos não a alcancem, pois seria contraditório o Deus da vida se alegrar com a morte. Ele sempre nos enche de vida, ela está aí, às vezes, sofrida, mas viva, e é lá que deveremos estar. 

Esperança de uma nova realidade

Jesuítas e colaboradores, com base nos Exercícios Espirituais, no olhar comprometido com a realidade, fugindo de um olhar artificial, devemos nunca perder a esperança, muito menos sermos “arautos das tragédias”. Pelo contrário, devemos continuar sendo anunciadores de um Deus que nos ama e trabalha sempre, cuidando, resgatando o ser de cada criatura, mesmo em meio a pandemias. As trevas desta noite escura não podem nos arrancar a autocrítica e a criatividade. Contemplar a realidade e a própria vida com o olhar de Cristo Ressuscitado nos tira do medo e do desânimo, pois Ele é o grande vencedor da maior pandemia de todos os tempos, a do fechamento do coração e da perda da esperança no projeto de Deus.

Nós, como Companhia de Jesus, somos e nascemos da esperança acalentada por Inácio de que a sua vida e a sua história não poderiam terminar em uma batalha, ferido por uma bala de canhão. Desse modo, esta pandemia poderá não mudar a humanidade, mas os Exercícios Espirituais e o Exame de Consciência podem nos converter em autênticos homens e mulheres comprometidos com a vida que a todo instante é ameaçada. O caminho é continuar “contemplativos na ação”, antes que a pandemia da secularização ou a “mundanidade espiritual” (Papa Francisco) tomem conta do nosso coração, quando aí perderemos a capacidade de compaixão.