Capela jesuíta é referência para renovação da arquitetura sacra no Brasil

Localizada em Juiz de Fora (MG), o espaço foi construído para levar fiéis a uma interação maior com o meio ambiente

Simples e encantadora, a capela jesuíta Recanto Manresa foi construída em meio à Mata Atlântica, em Juiz de Fora (MG). A construção de 80 m² chama atenção pelo tipo de arquitetura adotada e pela integração com a natureza.

Idealizada pelo arquiteto mexicano Eduardo Zarza, a capela tem formato octogonal, paredes de taipa (terra batida) e janelas de vidro que vão do teto ao chão e transformam a paisagem natural em uma espécie de pintura. A iluminação modular é outro destaque e permite criar diferentes cenários para cada ocasião, iluminando inclusive a vegetação nativa. Os materiais foram escolhidos de forma a fazer com que a construção interviesse o mínimo possível no meio ambiente. A ideia da construção não era criar algo em que arquitetura fosse contemplada e sim a natureza.

Para Eduardo Zarza, a relação entre arquitetura e espiritualidade vem desde a pré-história, quando o ser humano tomou consciência da existência de um criador. “Essa concepção de criação fez ele entender que criar é construir, projetar, desenhar. Assim, como Deus criou a nossa casa, nós criamos uma para ele”, afirma.

A arquitetura da capela só foi possível graças à preocupação do Colégio dos Jesuítas em ter um espaço de evangelização que se preocupasse com o meio ambiente. “Hoje é impossível pensar uma evangelização desconectada com o mundo criado, está tudo interligado. Esse cuidado com a Casa Comum no fundo é cuidado com o ser humano”, disse Pe. Mário Sündermann, até então diretor geral do colégio. “Estamos construindo ambientes que favoreçam o diálogo da criatura com o Criador. A natureza, como um todo, fala de Deus, tem a assinatura de Deus. Então, quando eu penso no diálogo com o Criador, eu encontro, como um atalho, conversando com a natureza, com a obra que é Dele”, acrescentou.

Teologia e arquitetura

A visão centrada na experiência é compartilhada pelo padre Thiago Faccini, assessor do Setor de Espaço Litúrgico da Comissão Episcopal Pastoral para Liturgia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Para o sacerdote, cada cristão batizado é pedra viva da Igreja, Corpo Místico de Cristo e, por isso, “não necessitamos de templos de pedras para celebrar”, diz. Contudo, ele adverte, a Igreja “precisa de um espaço para que a comunidade possa se reunir para ouvir a Palavra e receber o Corpo e Sangue do Senhor. Portanto, o edifício-igreja, tem a finalidade de nos remeter às coisas do alto, ao sagrado, e de nos reunirmos enquanto comunidade de fiéis”.

Além do aspecto mistagógico, o doutor e professor de Liturgia no Departamento de Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), Pe. Marco Antônio Morais Lima, enfatizou os aspectos contemplados na capela jesuíta e que devem ser considerados ao construir uma igreja. “Deve-se levar em consideração o movimento dos ministros e da assembleia, acústica, luminosidade (não deve ser excessiva para criar um ambiente aconchegante e de oração), a visibilidade e, sobretudo, a localização dos elementos identificadores do espaço litúrgico, ou seja, altar, ambão e fonte batismal”.

Laudato si’

Além da teologia do espaço litúrgico, a arquitetura atual precisa considerar outros elementos. Um deles se trata da questão ambiental, defendida pelo papa Francisco na encíclica Laudato si’.  A capela construída por Eduardo Zarza é um exemplo dessa nova arquitetura sacra.

O arquiteto diz que as reflexões teológicas e filosóficas da encíclica ajudaram na concepção do seu projeto. “É fundamental refletirmos sobre como temos feito uso da terra e dos recursos naturais. O cuidado com a Casa Comum e o conceito de interser, onde entendemos que tudo está ligado, todos somos um. Não existe fora da Casa Comum, então nada pode ser jogado fora e, assim, temos que ressignificar o que construímos porque no futuro isso pode se transformar em resíduo”, reflete.

Além do aspecto ecológico, a construção ainda vislumbra um aspecto pedagógico, explica o arquiteto. “Espero que o uso desse tipo de técnica possa inspirar os jovens estudantes do nosso colégio para olhar o futuro da arquitetura com outros olhos e entender a responsabilidade individual e coletiva do cuidado com a Nossa Casa”.

Igrejas no Brasil

A tentativa de conciliar modernidade e arquitetura sacra é um desafio significativo, sobretudo no Brasil. Muitas igrejas reproduzem modelos antigos, enquanto outras adotam formatos controversos. “Até então se adotavam os estilos tradicionais como românico, gótico, renascentista, barroco e eclético. Com o Concílio, os arquitetos tiveram bem mais liberdade de criação, vale a sua imaginação criativa”, explica Pe. Marco Antônio.

Contudo, o liturgista adverte sobre essa liberdade de criação. “Creio que não se deva exagerar, pois o edifício tem o seu sentido e deve lembrar que é um lugar de culto”. É nessa nova onda de igrejas, que conjugam modernidade arquitetônica e profundidade teológica, que a capela projetada por Zarza se insere. Ela faz parte de um processo nacional de revalorização do espaço litúrgico.

Fonte: Dom Total