Vocação de irmão jesuíta

Os caminhos até atender ao chamado de Deus

Em entrevista ao Em Companhia, o diretor do Centro de Espiritualidade Cristo Rei – CECREI, Ir. Celso Flach, relembra sua infância no interior do Paraná, a trajetória percorrida até se tornar jesuíta e as experiências marcantes da sua vida religiosa, como a graça de ter trabalhado na 35ª Congregação Geral da Companhia de Jesus, em Roma (Itália). No início de 2020, Ir. Celso completou 21 anos de ingresso na Ordem dos Jesuítas. Sobre a importância da vocação e missão de seus companheiros, ele enfatiza: “A presença do irmão jesuíta na Companhia simboliza, de modo particular, a natureza essencial da consagração religiosa”. Leia a entrevista a seguir e conheça um pouco mais da sua história.

Conte-nos um pouco sobre sua história, família, onde nasceu, onde estudou.

Sou o primogênito de uma família de quatro filhos, nascido em Itapiranga (SC). Quando tinha cinco anos, meus pais, em busca de melhores condições de vida, adquiriram terra, mata nativa, no interior de Santa Helena (PR), para onde se mudaram em 1973.

Depois de quatro anos de muito trabalho, tínhamos reserva financeira para adquirir mais uma colônia de terra no Paraguai. Porém, um acidente grave de trator deixou meu pai entre a vida e a morte e mudou o curso de nossa história. Como filho mais velho, com apenas nove anos de idade, assumi o trabalho do meu pai. Era o tratorista, além de ajudar minha mãe com o cuidado do gado e dos afazeres da propriedade.

Três anos após o acidente, 1980, meu pai estava bem, segundo os médicos, sobreviveu por milagre, porém, para trabalhos pesados na lavoura, sentia-se limitado. Por essa razão, minha família mudou-se para o centro da cidade de Missal (PR), onde, atualmente, reside.

Com 17 anos, ingressei no Seminário Paulino, em São Paulo (SP), onde conclui o Ensino Médio e o curso de licenciatura plena em Filosofia. Fiz um ano de noviciado em Caxias do Sul (RS) e, depois de professar os votos temporários, iniciei o curso de Teologia, em São Paulo. No entanto, desisti em meados do primeiro semestre por acreditar que não tinha vocação para padre.

Como conheceu a Companhia de Jesus? E por que decidiu ser jesuíta?

Depois da saída do Seminário Paulino, além de buscar emprego, coloquei-me à disposição do pároco de minha cidade, que era um jesuíta. Tive também algumas conversas com o Mestre de Noviços, que, na época, era o Pe. João Geraldo Kolling. Ele me convidou para um retiro inaciano no CECREI – Centro de Espiritualidade Cristo Rei. Assim, em novembro de 1995, tive minha primeira experiência na obra da qual hoje sou o diretor.

No início de 1996, comecei um curso de Letras na UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná, em Foz do Iguaçu (PR). Estudava à noite e, durante o dia, tinha meu emprego, além de estar envolvido com diversas atividades paroquiais. Tocava violão nas missas, era o tesoureiro da matriz, ajudava nos cursos de batismo e, além disso, fazia um programa diário de uma hora, em uma rádio comunitária que funcionava dentro das dependências da casa paroquial.

Foi nesse período que tive a intuição de que, embora não me sentisse chamado a ser padre, gostava de estar envolvido com os afazeres da comunidade e de que, talvez, a decisão de sair do seminário tivesse sido um erro. Reacendeu, assim, o desejo de retomar o caminho à vida religiosa.

Em 1996, participei de um encontro vocacional em São Leopoldo (RS), com o desejo de ingressar no ano seguinte, porém, como eu já tinha votos em outra congregação, foi necessário esperar, pelo menos, mais um ano para poder fazer o pedido de dispensa desses votos ao Superior Geral, em Roma (Itália). Em 1999, fui aceito e ingressei no noviciado.

Como se deu a escolha pela vocação de irmão? Quais foram as experiências mais marcantes vivenciadas durante sua formação como jesuíta?

No final do noviciado, eu havia decidido ser padre. Porém, no primeiro ano após o retorno aos estudos, em Belo Horizonte (MG), ficou claro que eu deveria mudar para irmão. Fiz o pedido e fui aceito.

Minha primeira destinação como irmão jesuíta foi trabalhar na Comunidade Vocacional Santo Afonso, em São Leopoldo. Eu era o coordenador comunitário, responsável pela pastoral, animação litúrgica, passeios, entre outras atividades. Os três anos em que fiquei nessa missão marcaram-me positivamente. Foi nesse período que consolidei minha vocação. Concomitantemente, iniciei o curso de Administração de Empresas na UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo. Trabalhava e, à noite, estudava. Aliás, toda minha formação acadêmica, tanto nos Paulinos como fora e dentro da Companhia de Jesus, sempre foi conjugada com o trabalho. O fato de ter que assumir grandes responsabilidades de trabalho a partir dos nove anos fez com que eu desenvolvesse um senso prático bastante apurado.

Depois da experiência na comunidade vocacional, passei três anos na casa dos jesuítas idosos como administrador. Nesse período, concluí os estudos na UNISINOS e, desde então, tenho atuado na área administrativa: primeiro, como administrador do CECREI, depois, coordenador da construção da nova Residência Cristo Rei e, atualmente, além de diretor administrativo da ASAV – Associação Antônio Vieira e da Companhia de Jesus, sou também o diretor geral do CECREI.

No início de 2008, aconteceu a 35ª Congregação Geral da Companhia de Jesus, em Roma (Itália). Tive a graça de ser destinado a trabalhar na logística desse evento, do qual fizeram parte mais de 200 jesuítas oriundos dos mais diversos países. Os cinco meses em Roma foram, além de uma imersão na compreensão do tamanho internacional da missão da Companhia de Jesus, uma grande oportunidade de conhecer o rosto concreto da Companhia Universal.

Atualmente, o senhor é diretor do CECREI, que é uma Casa de Retiros e também é utilizada para a realização de eventos. Como é o desafio de conciliar duas modalidades distintas de uso do mesmo espaço?

Para que possa continuar desempenhando bem sua missão com sustentabilidade, o CECREI tem recebido substanciais melhorias nos espaços físicos, bem como na busca pela excelência no atendimento ao público, cada vez mais exigente.

Os mais antigos devem se lembrar de que, há uns 15 anos, a obra funcionava de março a janeiro. Em fevereiro, os funcionários entravam em férias coletivas e a casa ficava fechada para as reformas necessárias para o ano vindouro.

Hoje, é totalmente inviável abrir mão da receita de um mês inteiro. É preciso fazer a gestão das reformas com a casa em funcionamento. Além disso, com o advento de outros públicos – como empresas, igrejas, associações, pessoas físicas –, fez-se necessário contar com o serviço de portaria 24 horas por dia.

A missão do CECREI foi assim definida no planejamento estratégico de 2018: “Oferecer espaços e serviços destinados à oração, reflexão, estudos, hospedagem e eventos corporativos, em um ambiente de espiritualidade, ampla área verde, com a tradição e a experiência Jesuíta.”

Um dos maiores desafios é conciliar tantas modalidades distintas de públicos sem que haja a frustração das diferentes expectativas. As pessoas que vêm para um retiro, por exemplo, esperam encontrar silêncio na casa.

Quem acompanha a programação do CECREI – disponível no site www.cecrei.org.br – percebeu que, nos últimos anos, a oferta de retiros tem diminuído. Neste ano, acontecem nos meses de janeiro, março, julho, outubro e dezembro. Buscamos concentrá-los nos meses de maior procura garantindo, assim, o atendimento com qualidade e, nos demais períodos do ano, dispomos da agenda para prospectar eventos corporativos que não demandam silêncio.

Qual a importância do CECREI para a Província? Uma casa de retiros ainda é viável?

Esta casa sempre teve sua importância histórica, pois, inicialmente, funcionava a Faculdade de Filosofia e Teologia até o início dos anos 1980, e, quando houve a transferência desses cursos para a FAJE – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte (MG), este espaço tornou-se uma casa de retiros.

Se o CECREI tivesse permanecido somente como casa de retiros, não teria sobrevivido sem aportes financeiros, pois as receitas advindas desses grupos não são suficientes para fazer frente às despesas de uma obra desse porte. Porém, usando de criatividade, empenho e muito trabalho, sem nunca perder a identidade jesuíta, a casa foi se reinventando e, hoje, continua oferecendo vários retiros anuais de qualidade, sem deixar de atender outros públicos que, na maioria das vezes, daqui saem encantados com a beleza do espaço e do bom atendimento dispensado pela equipe de funcionários e jesuítas da casa. O profissionalismo em todas as frentes tem feito a diferença. Estamos colhendo excelentes frutos com a elaboração do planejamento estratégico que reuniu diferentes áreas da gestão.

Como o senhor vê o papel do irmão jesuíta na missão da Companhia?

Vivo, há vários anos, numa comunidade de 11 jesuítas, na qual somos sete irmãos e quatro padres. Acredito que o irmão jesuíta recebe a missão do próprio Deus para SER: ser presença e testemunho da divindade em meio à humanidade; ser ponte que une sacerdotes e leigos numa mesma missão; ser, na comunidade, presença integradora, acolhedora e sensível às necessidades do entorno. A presença do irmão jesuíta na Companhia simboliza, de modo particular, a natureza essencial da consagração religiosa.

*Entrevista feita antes de iniciar o período de isolamento social em razão da pandemia de covid-19.