Em tudo, amar e servir

O processo de noviciado nas palavras do padre Jair Barbosa, Superior e Mestre dos Noviços

Padre Jair Barbosa, SJ, Superior e Mestre de Noviços

O Noviciado é um tempo de verificação da vocação. Essa é a descrição que o padre Peter Hans Kolvenbach faz dessa etapa de formação. Para ajudar nesse processo, seguindo os passos de Santo Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus propõe alguns “Experimentos”. Entre eles, o Experimento de Hospital. Nas palavras de Santo Inácio (Livro do Exame, 66): “A segunda [Experiência] consiste em servir, durante um mês, em um ou mais hospitais, comendo e dormindo neles […] Segundo as ordens recebidas, ajudarão e servirão a todos, doentes e sãos, para mais se abaterem e humilharem”. 

Vive-se o Experimento de Hospital na sequência imediata aos Exercícios Espirituais de 30 dias. O objetivo é ajudar o noviço a ter uma aproximação concreta com o “Cristo pobre, humilde e humilhado” (EE. 167), levando a que ele encarne em sua vida o que experimentou no campo da fé e do desejo, ou seja, o seguimento do Senhor. Isso permite mais integração da sua vida espiritual com a vivência da missão. 

Hoje, essa experiência acontece no Hospital Santo Antônio (HSA), das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). Para compreender a escolha pelo local, proponho um breve percurso histórico: No tempo em que o Noviciado Nossa Senhora da Graça era em Salvador (BA) e servia às antigas províncias da Bahia e Setentrional, esse Experimento era realizado na OSID. Deu-se a mudança do Noviciado para Feira de Santana (BA) e a sua realização passou a ser em dois hospitais locais. Com o advento da Província dos Jesuítas do Brasil e a unificação dos noviciados, retomamos o Experimento na OSID. A mudança mostrou-se, já no primeiro ano, muito feliz. Ganhou-se em acolhida por parte do Hospital; em presença, junto aos que ali estão internados; e, em conhecimento, com a diversidade de pessoas que buscam aquele lugar. Some-se o nosso desejo de que os noviços estivessem mais inseridos na obra, permanecendo próximos ao local em que estão trabalhando.

Além disso, uma grande surpresa, que serviu de confirmação para nós, foi o anúncio, em 2019, da canonização de Ir. Dulce. Cada noviço que passou por lá pôde vivenciar a experiência da presença constante dessa mulher, ao mesmo tempo tão franzina e tão dinâmica, nos corredores e enfermarias. Estando naquele ambiente, é impossível duvidar da santidade do “Anjo bom da Bahia”, ou, agora, de “Dulce dos Pobres”. Ela se faz presente em cada servidor, ou, ainda, em cada pessoa que lá é atendida. O HSA transforma-se em lar para muitos, numa espécie de oásis de cuidado para todos.

Com a canonização de Dulce dos Pobres, a Igreja, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), decidiu homenagear a mulher símbolo do cuidado com os últimos no País. O reconhecimento é por meio do cartaz da Campanha da Fraternidade (CF) 2020. Por ocasião da Quaresma, a Igreja oferece, todos os anos, um instrumento valioso para aprofundar nosso processo de conversão e um tema de interesse da sociedade é proposto para reflexão.

O tema da CF 2020 é Fraternidade e vida: dom e compromisso. Inspirado na parábola do Bom Samaritano – viu e sentiu compaixão –, trata-se de uma tentativa de ajudar-nos, como cristãos, a refletirmos sobre o tema do cuidado. Assim sendo, nada mais justo do que tomar Ir. Dulce como exemplo: alguém que dedicou sua vida para cuidar dos pobres e dos doentes. Ela conseguia enxergar, em cada pessoa que batia às portas do HSA, ou mesmo naquela que encontrasse caída pelas ruas e becos, o próprio Jesus. Ver Dulce dos Pobres cercada de crianças e adultos nas ladeiras do Pelourinho (BA) é ter a consciência de que uma vida doada é, e será sempre, uma vida santificada.

A volta do Experimento para a OSID não coincidiu mais com a presença física de Irmã Dulce, porém muita gente faz com que o espírito dela permaneça vivo. Uma dessas pessoas faleceu faz dois anos: Dona Irá. Mulher de fé e de uma entrega invejável, sua consigna era: “desta vida, a gente só leva o bem que se faz”. São lições que os noviços trazem consigo e que levarão para a vida.

Por tudo isso, os experimentos do tempo do Noviciado contribuem para o aprofundamento do discernimento vocacional dos noviços. No Experimento de Hospital, de modo particular, o confronto com a finitude humana, com nossos limites, mas também com o cuidado e com o afeto,  levam a crescer no desejo de gastar a vida com generosidade. Uma grande oportunidade de fazer seu um trecho do pedido de graça da Contemplação para Alcançar Amor (EE. 233) e que se tornou um lema inaciano: “Em tudo, amar e servir”.