Caminhos da Fé, entrevista com Pe. Inácio Spohr

O jesuíta relembrou os 55 anos de vida religiosa

Em entrevista ao Em Companhia, o Pe. Inácio Spohr relembrou os 55 anos de vida como jesuíta. Nascido em Cerro Largo (RS), ele foi criado num ambiente familiar e paroquial. Ainda na infância, sentiu o chamado de Deus e viu nascer no coração um desejo: “No final do curso primário, brotou em mim o desejo de ser padre. Achava bonito como o pároco celebrava a missa. A alegria foi tanta que, no final da aula, corri para casa a fim de dar a notícia aos meus pais”. No decorrer da sua trajetória, o jesuíta vivenciou experiências marcantes, chegando, inclusive, a trabalhar na Cúria Geral da Companhia de Jesus, em Roma (Itália). Autor de 22 volumes da coleção História das Casas, Pe. Inácio é reconhecido por resgatar as memórias dos jesuítas no Sul do Brasil.

 

Conte-nos um pouco da sua história de vida.

 Nasci em Cerro Largo (RS), no ano de 1944. Sou o décimo dos 13 filhos que meus pais criaram na roça. A casa paterna, a escola primária e a igreja formam o tripé da minha infância. Durante a semana, o ritual era aulas na escola e trabalho na roça. Fui criado dentro desse ambiente familiar e paroquial. Sinto-me ligado à terra natal, onde destaca-se a bela Igreja Matriz de Cerro Largo, dedicada à Sagrada Família de Nazaré, na qual fui batizado, crismado e ordenado presbítero. Após os estudos, trabalhei em paróquias, seminários, noviciado, casa de retiros, casa de saúde e na Cúria Geral.

 

Como conheceu a Companhia de Jesus e como descobriu a sua vocação?

 No final do curso primário, brotou em mim o desejo de ser padre. Achava bonito como o pároco celebrava a missa. A alegria foi tanta que, no final da aula, corri para casa a fim de dar a notícia aos meus pais. Havia um seminário em Cerro Largo, mas ele não me atraiu. Meu “mano” José me falou que eu poderia ingressar no Colégio Santo Inácio, em Salvador do Sul (RS), onde ele estudava. Quando tive que sair da casa paterna, ah, que saudade! A viagem de caminhão foi longa, cerca de 20 horas. Só mais tarde, fui saber que eram os jesuítas que dirigiam o seminário de Cerro Largo e o Colégio Santo Inácio. Sempre fui grato a Deus pelo dom da vocação à Companhia de Jesus.

 

Quais as experiências mais marcantes que o senhor vivenciou durante os seus 55 anos como jesuíta?

 Os primeiros cinco anos de sacerdócio foram marcantes, em Nova Trento (SC), onde trabalhei na Paróquia São Virgílio e no Seminário Nossa Senhora de Fátima. Éramos vários jesuítas, padres e irmãos. Formamos uma comunidade religiosa muito boa, não apenas de trabalho pastoral, mas também de oração e convivência. Havia dezenas de capelas, oratórios e comunidades religiosas atendidas pelos padres. Gostava das celebrações, batizados, confissões, cursos de batismo, palestras para professores, visitas às capelas e escolas e bênçãos das casas.

 Durante a Terceira Provação, fiz estágio de pastoral em Barreiras (BA). Gostei muito de celebrar missas para o povo simples e exercer outros ministérios. Fazia anos que o pároco não visitava a região. Certo dia, realizei 71 batizados em uma escola rural, um recorde na minha vida sacerdotal. Imagine o cenário: berreiro de crianças e, ao redor, latido de cachorros, relinchar de jegues e fogos de artifício.

 Fui secretário de língua portuguesa na Cúria Geral, em Roma (Itália). Morava no Colégio Pio Brasileiro, onde também era secretário. Na Cúria Geral, conheci jesuítas de várias partes do mundo. No Colégio Pio Brasileiro, os contatos foram com padres e bispos do Brasil. Assim, durante dez anos em Roma, aprendi muita coisa sobre o Vaticano e sobre o Brasil. Vi como a Companhia de Jesus é importante para a Igreja e para o mundo.

 

Atualmente, o senhor é responsável por resgatar as memórias dos jesuítas no Sul do Brasil e contá-las por meio da coleção História das Casas. Conte-nos sobre essa missão.

 Quando fui secretário do provincial, Pe. Geraldo Kolling e Pe. Vicente Zorzo, em Porto Alegre (RS), muitas vezes, tive de consultar o Arquivo Provincial. No decorrer de 2009 a 2014, achei por bem fazer um banco de dados de todos os jesuítas falecidos, a fim de atender alguns pedidos. Repassei milhares de fichas, documentos, cartas, diários e fotos. Os catálogos foram fundamentais nesse trabalho. Fiquei edificado com os obituários de muitos jesuítas. Após um ano de pesquisa, tinha concluído os dados biográficos de cada um. As biografias foram impressas em um livro de 800 páginas, em 2011: Memória de 665 Jesuítas do Brasil Meridional, de novembro de 1867 a novembro de 2011.

 Depois dessa publicação, tive a ideia de historiar as casas dos jesuítas. Pesquisei os diários das residências, cartas, história domus (história da casa), documentos, fotos e livros de tombo das paróquias. Uma vez terminado o trabalho de uma casa, começava o de outra. As crônicas são descritas de modo cronológico: data por data, conforme as fontes de pesquisa. A maioria dos jesuítas, sem falar dos leigos, não conhece o Arquivo Provincial e rejeita “papel velho”, os manuscritos. Decidi resgatar esse “papel velho” sob a forma de livro impresso. Um material rico sobre o desenvolvimento das paróquias, colégios, seminários, capelas e santuários. Pude ajudar a muitos jesuítas e leigos que pediam informações sobre determinadas obras, o que me gratificou. Ao todo, já publiquei 22 volumes da coleção História das Casas e há outros à espera de publicação.

 

Quais momentos da história das casas da Companhia lhe chamaram mais a atenção?

 Alguns jesuítas espanhóis, expulsos da Argentina, missionavam pelo Rio Grande do Sul, em 1842, e viram que os colonos alemães estavam muito mal assistidos pela Igreja e pelo Estado. A Revolução Farroupilha havia deixado um rastro de destruição e morte. Em 1849, vieram ao estado dois padres e um irmão jesuíta de língua alemã. Logo após sua chegada, os jesuítas se embrenharam pelas matas a fim de atender os agricultores. Cheios de zelo apostólico, deram-lhes catequese, missa, batizados, casamentos e escola. Muitos alemães choraram de alegria pelo fato de poderem ouvir novamente uma pregação em sua língua de origem, o que não tiveram desde a sua chegada ao Brasil, em 1824.

 O lombo do burro, ou do cavalo, era o meio de transporte mais usado para vencer as distâncias. Às vezes, aconteciam quedas, com fratura de ossos, ou afogamento em rios. Nem todos os missionários eram bons cavaleiros. O padre Theodor Amstad se tornou famoso por ter percorrido cerca de 180 mil km a cavalo para exercer ministérios. Outros jesuítas tinham de andar cerca de 10 ou 12 horas a cavalo para atender as capelas mais distantes da matriz, devendo passar por trilhas no meio dos matos e morros, e estar atentos, dia e noite, para as chamadas aos doentes. A Província teve cerca de 45 paróquias no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, de 1849 a 2020. Agora, restam bem poucas.

 As construções de igrejas e capelas sempre receberam a atenção dos jesuítas, sendo artísticas muitas delas, como a Catedral São João Batista, de Santa Cruz do Sul (RS). O santuário do Sagrado Coração de Jesus, em São Leopoldo (RS), foi construído somente com esmolas dos devotos do Pe. João Batista Reus, sendo diretor o Pe. Cândido Santini. A cada dois anos, os jesuítas organizaram congressos católicos nas paróquias para tratar de assuntos relativos à família, escola, Igreja, saúde, economia e educação dos colonos. Nos congressos, havia missas, conferências, procissões e teatros. E o povo participava com ânimo!

 Em grande parte, a formação do clero secular no Sul do Brasil esteve nas mãos dos jesuítas no decorrer de 70 anos. Os jesuítas tinham 14 seminários e escolas apostólicas nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Quanto aos colégios, tinham em Rio Grande (RS), Pelotas (RS), São Leopoldo (RS), Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC). Mais tarde, surgiu o de Curitiba (PR). Muitos bispos, padres, políticos, militares e professores foram alunos dos jesuítas. O Apostolado da Oração e as Congregações Marianas despertaram muitas vocações sacerdotais e religiosas nas paróquias e nos colégios.

 

Como desenvolveu o gosto e habilidades para ser o historiador das casas?

 Enquanto Deus me dá saúde e força, faço os meus trabalhos com muito gosto. Ninguém me ensinou como escrever a história das casas. Fui criando e fazendo do meu jeito. Não faço análise dos fatos sucedidos nas paróquias, colégios ou seminários. Procuro “fotografar” a obra de forma linear, preto no branco, ano após ano, sem dizer se foi bom ou não. Agora, guardo na memória os principais fatos, datas e nomes de cada casa. Sinto-me honrado se posso ajudar alguém sobre a história de determinada casa, que já não nos pertence mais. 

 

Podemos afirmar que a história da atuação da Companhia de Jesus no Brasil contribuiu para a evangelização e também para a constituição cultural, social e política do país?

A Companhia de Jesus desenvolveu uma bela missão junto à população do Sul do Brasil. A evangelização se realizou por meio de missões populares, sermões, catequeses, retiros, publicação de livros, revistas e jornais, formação de seminaristas e professores, o ensino nos colégios, a pesquisa científica (Pe. João Evangelista Rick e Pe. Ambrósio Schupp), a fundação de colônias de terras para os agricultores (Pe. Max von Lassberg), a fundação de cooperativas de crédito (Pe. Theodor Amstad) e a defesa da ecologia (Pe. Balduíno Rambo). Muitos alunos dos nossos colégios e da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos) reconhecem o quanto aprenderam dos jesuítas, o que agradecemos.

 

Essa entrevista foi publicada na 62ª Edição do informativo Em Companhia (Fevereiro 2020). Quer ler a edição completa? Então, clique aqui!