Especial: Diálogo entre fé e razão


Ao longo da história, os jesuítas têm atuado nas diversas áreas do conhecimento: padre Eugenio Rivas em sala
de aula, na FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), em Belo Horizonte (MG)

Desde a fundação da Companhia de Jesus, os jesuítas sempre foram reconhecidos como exímios estudiosos. Ao longo da história, a formação e a atuação em diversas áreas do conhecimento confirmam essa tradição da Ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola, que tem buscado, na profundidade intelectual, um modo de anunciar o Evangelho. A importância do Apostolado Intelectual é tão grande que, em uma conferência no México, em 2010, o então Superior Geral, padre Adolfo Nicolás, afirmou que esse não é um ministério isolado, pois “se aplica a todas as obras e apostolados jesuítas”, visto que requerem “aprendizado e inteligência, imaginação e perspicácia, estudos sólidos e análises rigorosas”.

Para o padre Geraldo Luiz De Mori, reitor da FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), a definição do Pe. Geral indica que esse apostolado é uma característica de toda a atividade da Companhia de Jesus. “No fundo, trata-se de não se contentar com um olhar superficial sobre a realidade, mas de desvendá-la em profundidade”, afirma o jesuíta.

Nesse sentido, segundo o padre Marcelo Aquino, reitor da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), o Apostolado Intelectual pode acontecer em diferentes contextos. “Nas universidades, nas paróquias, nos centros sociais, em grupo de pesquisa, na editoração de uma revista, na assessoria ao trabalho com jovens, em uma casa de formação, na experiência de acompanhamento espiritual. Faz Apostolado Intelectual todo jesuíta que contempla a ação do Espírito no coração das pessoas, nas dobras das instituições ou nas trilhas que nos são propostas a percorrer para anunciar o Evangelho de Cristo”, revela.

O padre Guillermo Antonio Cardona Grisales, coordenador da Pastoral Social da Diocese de Santarém (PA), lembra que o Apostolado Intelectual também está presente no Plano Apostólico da Província dos Jesuítas do Brasil – BRA (2015-2020). “Ele aparece como uma das características fundamentais de nosso modo de proceder apostólico, o ministério instruído”, ressalta.

Nesse contexto, o Apostolado Intelectual, primeiramente, consiste no exercício do pensar, ou seja, “ir além do que aparece à primeira vista para compreender a complexidade dos processos que vivemos, para encontrar sentido ao que se faz e abrir um espaço à criatividade, que inventa caminhos para uma vida melhor”, explica padre Guillermo.

“A espiritualidade de Inácio de Loyola não é a da fuga do mundo, mas a da ‘busca e do encontro de Deus em todas as coisas’. Isso tem implicações profundas na maneira como os jesuítas se relacionam com o mundo.”

Pe. Geraldo Luiz De Mori, reitor da FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia)

Apesar de caracterizar e estar presente em todas as atividades da Companhia de Jesus, o Apostolado Intelectual constitui uma área específica, intimamente relacionada com o carisma inaciano. “A espiritualidade de Inácio de Loyola não é a da fuga do mundo, mas a da ‘busca e do encontro de Deus em todas as coisas’. Isso tem implicações profundas na maneira como os jesuítas se relacionam com o mundo. Por mais complexa que seja a realidade, eles devem buscar encontrar nela as pegadas do Criador, do Salvador e do Santificador. Isso se dá pelo discernimento. E o discernimento tem uma dimensão espiritual, sem dúvida, mas também implica a capacidade de leitura do real. Para isso, servem todos os saberes. Por isso, também, muitos jesuítas sempre se interessaram por todos os campos do conhecimento, estabelecendo diálogos importantes entre fé e razão, abrindo-se às novas culturas, tanto as que foram descobertas no período da fundação da Companhia quanto as que são gestadas ao longo dos grandes avanços da ciência moderna e, recentemente, as da tecnociência”, explica padre Geraldo.

Para o padre Álvaro Pimentel, vice-reitor da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), a Companhia de Jesus sempre buscou anunciar o Evangelho tendo como seu estilo próprio a encarnação no mundo atual. “Essa atualidade do apostolado da Companhia exige hoje, como no passado, conhecimento, em profundidade, da cultura, da ciência e dos grandes problemas do tempo. Por isso há alguns jesuítas que se dedicam, de modo constante, aos estudos e ao chamado Apostolado Intelectual em sentido estrito. Recebem-no em suas vidas como missão”, afirma.

A FORMAÇÃO DO JESUÍTA

Hoje, assim como no passado, os jesuítas estão envolvidos em diversas áreas do conhecimento, por isso o estudo e a pesquisa são indispensáveis para a realização da missão de Cristo no mundo. Assim, a qualidade dessa atuação depende da boa formação desses jesuítas. “Nós somos preparados para exercer a missão na perspectiva da profundidade, ou seja, não devemos repetir acriticamente o que todos fazem, nem nos contentarmos com a superficialidade. Isso é constitutivo da espiritualidade, do discernimento, da busca do maior serviço”, explica padre Geraldo.

O investimento nos estudos das ciências filosóficas e teológicas, assim como nas outras ciências, é parte fundamental da formação dos jesuítas. “Procuramos ajudar a decifrar a presença de Deus nas multifacetadas experiências pessoais e históricas da humanidade. A dialética fé e justiça vem mostrando sua virtualidade para o modo de proceder do intelectual jesuíta”, afirma padre Marcelo.

Para aqueles que se dedicam ao Apostolado Intelectual como missão, o padre Álvaro explica que esse trabalho é ordenado em quatro eixos: investigação, ensino, formação e discernimento (veja detalhes no infográfico). “Essa breve descrição das frentes de missão do Apostolado Intelectual na Companhia de Jesus configura um enorme desafio que ultrapassa as forças do corpo apostólico de nossa Companhia e exige, portanto, uma inserção na comunidade acadêmica e científica do País”, ressalta o jesuíta.

O padre Geraldo lembra, também, que a insistência nos estudos humanísticos é uma característica própria tanto da organização dos estudos na Companhia nascente quanto nas diversas épocas de sua história. “Ainda hoje, os estudantes jesuítas são formados em contato com o grande patrimônio de estudos humanísticos da humanidade, o que os capacita para dar contribuição significativa na compreensão da realidade e para atuarem nela”, afirma.

Sobre o início da Companhia de Jesus, padre Guillermo recorda que Santo Inácio de Loyola encontrou os primeiros companheiros, com quem fundou, mais tarde, a Ordem religiosa, na Universidade de Paris (França), uma das mais prestigiadas no século XVI. Apesar do Apostolado Educacional não ter sido, de início, considerado um campo de atuação dos jesuítas, os companheiros fizeram a opção por um ministério instruído para melhor servir ao anúncio do Reino de Deus e à defesa da fé. “Isso explica porque, desde o início, houve o interesse dos jesuítas por uma formação de qualidade que lhes permitisse exercer seus ministérios com um bom respaldo de conhecimentos. Isso serviu de base para orientar a formação dos futuros jesuítas dentro de um padrão de educação de qualidade, que ajuda a fazer compreender a mensagem de Deus e seu Reino no meio de uma cultura que se quer erigir dentro de um espírito mundano e não sobre a dignidade da vida humana e do bem comum. Para fazer compreender a profundidade da fé cristã, é preciso conhecer, em profundidade, tanto o sentido da existência humana como da Boa Nova que é anunciada”, ressalta.

APOSTOLADO INTELECTUAL HOJE

No mundo, o Apostolado Intelectual da Companhia de Jesus se desenvolve e se concretiza de diferentes maneiras e, como lembra padre Guillermo, “dentro da definição da missão universal da Companhia de Jesus, dada pelas Congregações Gerais, como ‘serviço da fé e promoção da justiça’ na tríplice reconciliação de que precisa o mundo hoje (com Deus, com os outros e com a natureza), recolhendo as experiências atuais dos jesuítas nos serviços que prestam à Igreja e à sociedade”. O jesuíta afirma também que isso recorda as reflexões e orientações dos últimos Superiores da Companhia de Jesus.

Jesuíta e astrônomo: o irmão Guy Consolmagno conquistou, em 2014, a Medalha Carl Sagan, prestigiado prêmio da Sociedade Astronômica Americana

Padre Geraldo, da FAJE, explica que essa diversidade do Apostolado Intelectual está presente em todo o mundo. Na Europa, algumas Províncias têm instituições universitárias dedicadas ao estudo, ensino e pesquisa em Filosofia e Teologia. Outras apostaram mais no campo editorial, por meio de revistas de perfil mais acadêmico, em geral, de Filosofia, Teologia, Espiritualidade e Ciências Sociais, ou de perfil mais cultural e de grande divulgação. “Uma das revistas mais importantes que encarnam esta última perspectiva é a Revue Études, dos jesuítas franceses, que há mais de 150 anos busca estabelecer um diálogo entre cristianismo e cultura contemporânea”, conta. Nas Américas, por sua vez, o jesuíta fala que “a Companhia criou muitas universidades, algumas delas com grande impacto na produção do saber, além de terem contribuído para a formação de muitos profissionais e de imigrantes, como é o caso dos Estados Unidos”. Na América Latina, ele explica que, “além das universidades, os centros sociais foram lugar de elaboração de pensamento crítico, em geral, em diálogo com os movimentos sociais que buscam sociedades mais justas”. Na Ásia, em alguns países, “a Companhia também investiu muito na criação de universidades. Algo parecido com o que começa a acontecer em algumas províncias da África”, explica.

Atualmente, no Brasil, o Apostolado Intelectual é feito por meio das universidades jesuítas, dos centros de pesquisa e ação social, dos centros de espiritualidade, dos institutos de pesquisa e, nos últimos anos, dos institutos de produção de informação, debates e publicações (Institutos Humanitas Unisinos e Unicap). No âmbito dos centros de pesquisa e ação social, o padre Geraldo destaca alguns trabalhos, como o do OLMA (Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida), em Brasília (DF); do CEAS (Centro de Estudos e Ação Social), em Salvador (BA); do CEPAT (Centro de Promoção de Agentes de Transformação), em Curitiba (PR); e do SJMR Brasil (Serviço Jesuíta aos Migrantes e Refugiados).

Uma parte importante do Apostolado Intelectual é desenvolvida nas universidades jesuítas, que fortalecem a construção do pensamento crítico e dos valores humanos. Na visita que fez ao Brasil, em 2017, o atual Superior Geral da Companhia de Jesus, padre Arturo Sosa, esteve em várias instituições de ensino superior (FAJE, PUC-Rio, Centro Universitário FEI, Unicap – Universidade Católica de Pernambuco e Unisinos). Na ocasião, ele pontuou que a universidade é um lugar privilegiado para colocar em prática a missão da Companhia hoje.

Em seus discursos, padre Arturo afirmou que as universidades não devem se restringir apenas à criação de ambientes de busca da verdade, por meio de estudos e debates, mas, ao mesmo tempo, devem propor alternativas para os grandes problemas da humanidade. Além disso, segundo padre Geraldo, o jesuíta pontuou outros aspectos importantes da missão da Companhia de Jesus no Apostolado Intelectual. “Na FAJE, ele insistiu no papel das instituições universitárias em ‘criar pensamento orientado para a formulação de um sistema de ideias, para o desenvolvimento sustentável’, de modo a ‘transmitir conhecimento de uma maneira adequada à sensibilidade de gerações mais jovens’. Na PUC-Rio, ele recordou o aporte da universidade na ‘missão de reconciliação e da justiça’. Na Unisinos, discorreu sobre o discernimento, afirmando que a universidade é um ‘lugar privilegiado para o desenvolvimento dos saberes, para enxergar além dos seus muros e estar atento aos problemas da humanidade’. No Centro Universitário FEI, destacou o papel da universidade como ‘espaço definido pelo pluralismo e pela convergência de diversidades que se encontram e dialogam com a sociedade’. Na Unicap, lembrou o papel da universidade no processo de democratização da sociedade, sobretudo, neste tempo de polarizações”, relembra o reitor da FAJE.

“Para sermos, verdadeiramente, discípulos do Senhor, apóstolos comprometidos em transmitir a graça recebida, precisamos pensar, isto é, ir a fundo nesse trabalho intelectual que ajuda à eficácia da Palavra pregada”

Pe. Guillermo Cardona, coordenador da Pastoral Social da Diocese de Santarém (PA)

O padre Guillermo recorda, também, os principais desafios do Apostolado Intelectual da Companhia de Jesus hoje, que foram apontados pelo Padre Geral. “As principais realidades do mundo que desafiam nosso apostolado a procurar respostas criativas são seis: 1) As migrações em proporções até agora desconhecidas; trata-se de milhões de pessoas, em condição de migrantes, refugiados ou migrantes forçados, que deixam seu lugar de origem à procura de uma vida melhor; 2) A crescente desigualdade social e econômica nos países e no mundo, o abismo entre ricos e pobres se faz cada vez mais profundo e infranqueável; 3) O enfraquecimento da capacidade de diálogo, que leva ao recrudescimento da polarização e do conflito; 4) A crise socioambiental, que afeta ‘nossa casa comum’, como diz o Papa Francisco, que leva a um sistema de produção e de consumo que engendra uma cultura de descarte, e que, entre suas causas, está o atual paradigma científico-tecnológico dominante; 5) A cultura digital, que traz um grande avanço, mas está afetando as relações pessoais e intergeracionais; 6) O enfraquecimento e descrédito da política”, ressalta ele.

Para o jesuíta, a valorização e o fortalecimento do Apostolado Intelectual são essenciais na missão da Companhia de Jesus. “Para sermos, verdadeiramente, discípulos do Senhor, apóstolos comprometidos em transmitir a graça recebida, precisamos pensar, isto é, ir a fundo nesse trabalho intelectual que ajuda à eficácia da Palavra pregada. Aqui, finalizo com uma fala do Padre Geral: ‘Esta necessidade de compreender a fundo nosso mundo para poder oferecer o maior e o melhor serviço à Glória de Deus é a razão pela qual entendemos nossa missão como um verdadeiro apostolado intelectual. Nosso desejo é entender o ser humano e o mundo, na sua complexidade, para que o ser humano possa configurar o mundo de um modo mais compassivo e, portanto, mais divino’”, conclui.

SAIBA MAIS

Esta matéria foi publicada na 45ª Edição do informativo Em Companhia (Junho 2018). Quer ler a edição completa? Então, clique aqui! No especial, você ainda conhecerá alguns jesuítas que   destacaram-se em diferentes áreas do saber ao longo da história.

Para saber mais sobre o Apostolado Intelectual da Companhia de Jesus assista ao vídeo que preparamos para você: