Editorial: Apostolado Intelectual, nossa identidade


Hoje, assim como no passado, os jesuítas estão envolvidos em diversas áreas do conhecimento. O Apostolado Intelectual da Companhia de Jesus é reconhecido como parte essencial do carisma inaciano e busca, por meio dos diferentes saberes, anunciar a Boa Nova de Cristo.  Nesta edição, o Em Companhia aborda a importância que o ministério instruído tem para a Ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola. Abaixo, confira o editorial da publicação:

Pe. Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
Professor de Filosofia da FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia)

Desde sua fundação, a Companhia de Jesus deu grande importância à dimensão intelectual de seu apostolado. Os primeiros jesuítas se conheceram enquanto estudavam em Paris (França) e, por isso, essa dimensão crítica e sapiencial sempre esteve presente na identidade da Companhia de Jesus. Para os jesuítas, o Apostolado Intelectual é uma contribuição significativa e iluminadora para a descoberta dos caminhos de Deus no mundo. Assim, em toda parte e em qualquer situação, esse apostolado tem importância fundamental para a vida e missão da Companhia de Jesus em sua atitude de compreender as diversas culturas, sociedades e pessoas e, assim, anunciar o evangelho de forma encarnada e profética.

A importância do Apostolado Intelectual fica muito visível na história da Companhia e na vida de muitos jesuítas. Por exemplo, no Brasil, São José de Anchieta encarna esse ideal de jesuíta dedicado à missão e, por isso mesmo, usa todas as suas habilidades e capacidades em favor dos outros. Em Anchieta, o Apostolado Intelectual ganha vida em sua mais completa realização. Ele, usando de suas capacidades, é dramaturgo, catequista, poeta, gramático, historiador, teólogo, pedagogo, mistagogo; enfim, usa todos os seus dons, numa determinada situação histórica, em favor dos outros. Assim como Anchieta, poderíamos pensar em tantos outros jesuítas, mas também leigas e leigos, religiosos e religiosas, inspirados pela espiritualidade inaciana, vivendo, criativamente, a missão.

“Para os jesuítas, o Apostolado Intelectual é uma contribuição significativa e iluminadora para a descoberta dos caminhos de Deus no mundo”

Para os jesuítas, nossa capacidade intelectual, que nos permite olhar a realidade de forma crítica e sapiencial, é indispensável para pensar fé e justiça, fé e ciências, fé e culturas, fé e sociedade, fé e razão. É nesses âmbitos, nessas fronteiras, que o diálogo se faz presente. É nesses lugares que a Companhia de Jesus, como fiel seguidora de Cristo na Igreja, pode e deve contribuir. Por isso o padre Adolfo Nicolás, antigo Superior Geral da Companhia de Jesus, numa carta aos jesuítas, em 24 de maio de 2014, escreve lembrando do valor do Apostolado Intelectual. Nessa carta, ele aponta quatro modos de viver, em todos os ministérios da Companhia, essa dimensão fundante da vida do jesuíta, que exige dos jesuítas a capacidade de viver sempre numa tensão criativa em busca do melhor, numa inserção profunda em busca da vontade encarnada de Deus, numa atitude crítica diante das realidades. Tudo isso num horizonte sapiencial, iniciando processos, construindo pontes, em busca das reconciliações de que o mundo tanto precisa.

Assim, os diversos modos de viver o Apostolado Intelectual na Companhia de Jesus são encarnados: (1) na missão de investigar; (2) na missão de ensinar; (3) na missão de formar e (4) na missão de discernir. Alguns jesuítas têm a missão de, inseridos numa comunidade de investigação científica, investigar a realidade buscando compreender seus aspectos e apontando caminhos de realização. Outros, em várias instituições de ensino, formal ou informal, têm a missão de ensinar a homens e mulheres a sabedoria acumulada pelas culturas em vista de maior crescimento humano. Outros ainda, nos mais diversos lugares onde é possível, acompanhando pessoas e situações, formar homens e mulheres para os demais, sob a luz do evangelho. Mas todos temos a missão de discernir. Hoje, especialmente, discernir caminhos de reconciliação em nosso mundo, muitas vezes ferido, mas, sempre, profundamente amado por Deus.

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