Artigo: o cristão leigo e os Exercícios Espirituais


A Igreja no Brasil estabeleceu 2018 como o Ano do Laicato, que tem como intuito estudar, avaliar e celebrar a presença dos cristãos leigos no País. Com o tema Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino e o lema Sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5,13-14), somos convidados a refletir sobre o papel do cristão leigo na Igreja e na sociedade.

Aproveitando o Ano do Laicato, o padre jesuíta Paulo Lisboa, orientador de Exercícios Espirituais, escreveu um artigo relacionando o tema com os Exercícios Espirituais. Confira:

 

CRISTÃOS, LEIGOS E LEIGAS, E EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

  1. JUSTIFICAÇÃO INTRODUTÓRIA

Passando já da metade do Ano dedicado ao Laicato aqui na Igreja Católica do Brasil, pensei ajudar aos amantes dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE) com uma reflexão sobre o tema acima.

Na certa, aqueles leigos e leigas que já passaram pelos EE nas suas diversas modalidades e especialmente aqueles e aquelas que dão EE ou os acompanham, estes aproveitarão mais daquilo que escrevo sobre a questão. Para os demais, poderá ser uma boa e nova informação.

De uma forma genérica e introdutória, penso ser importante que eu apresente uma constatação não só de ordem pessoal, até de ordem muito comum, nos meios religiosos de nossa catolicidade. Constata-se, hoje, que a espiritualidade inaciana originada dos EE é uma resposta atualíssima à busca quase maciça dos nossos cristãos leigos e leigas. Isso me alegra sobremaneira, com uma certeza de que se tem hoje um meio muito eficaz ao laicato cristão de vivência sacramental, como “Sal da terra e luz do mundo “ ( Mt 5, 13-14).

Apresento pois a seguir ao leitor interessado, alguns aspectos do caminho trilhado pelos protagonistas dos EE. Desde o seu autor e criador Inácio de Loyola, até o avanço dado pelo Pe. Pedro Arrupe, quando era Superior da Companhia de Jesus, nos idos de 1970 e 1980, pretendo apenas dar algumas pinceladas ao que chamo de A graça de uma história (2) e na sequência O que está hoje a acontecer (3). A conclusão agradecida(4) será em forma de uma ação de graças de novo compromisso .

  1. A GRAÇA DE UMA HISTÓRIA

Como acima falei, apresento tal dom resumidamente. A minha intenção é que o leitor veja que a intuição original do convertido no castelo de Loyola e na Cova de Manresa foi o motor que o fez transmissor de uma experiência de leigo para leigos. Virá o momento em que, no dia a dia de seu contato com pessoas consagradas, clérigos e religiosos, oferecerá a todos, sem exceções, o instrumental que o levou mais perto de Jesus Cristo. Vejamos essa graça em momentos sucessivos.

1º) Numa experiência de singular conversão

O leigo cortesão, que cai humilhado numa batalha inglória, tem obrigação por honra cavalheiresca de levantar-se. Só que não sonhando com glórias celestes. Contudo a graça de Deus foi mais forte que as inclinações meramente mundanas. Ela veio forte ao enfermo de Loyola (1521) e ao caminhante de Montserrat, até Manresa (1522), quando se entregou à aventura da busca da verdadeira glória, a do Deus Altíssimo. Abre-se agora ao peregrino um novo caminho com rumo mais certo e mais definido. Tratar-se-á de longa e dura experiência de nova vida. Ela será permeada de alegrias e tristezas, de certezas e incertezas, de consolações e desolações no mais recôndito de uma outra vida leiga de anos quase perdidos e que agora tinha um único desejo: aproximar-se de um “Rei eterno” (EE, 95).

O resultado de um tamanho esforço de conformação com Alguém que o atraia é que resultou na origem dos EE. É na luta dos contrários espíritos que foi se dando aquela ordenação de vida, segundo o que ficou mais caro ao penitente de Manresa, como projeto de uma Amor divino. Entende-se então a expressão que aparece nas “Anotações” dos Exercícios: “…procurar e encontrar a vontade de Deus na disposição da própria vida, para o bem da mesma pessoal” (EE,1).

2º) No sopro do Espírito, que abriu caminhos

Nada de novo teria acontecido em termos sócio eclesiais se a experiência de conversão ficasse apenas no interior desse convertido. No entanto, aquele Espírito divino que o acompanhou durante toda aquela experiência e o escolhera para anunciá-la como graça recebida, impulsionou-o a sair de si e aproximar-se das outras pessoas. Este verdadeiro êxodo logo resulta em encontros fortuitos com gente de toda espécie e que tinham uma inclinação às “coisas espirituais”.

Desde 1524, voltando Inácio da peregrinação à Terra Santa o peregrino irá fazendo o bem aos outros, especialmente a leigos e leigas, através de longas conversas espirituais. Os estudos, até chegar aos de Teologia – anos de 1526 a 1535 – são para organizar melhor seus esquemas e escritos mentais, integrados aos conhecimentos que recebera diretamente das moções em seus exercícios na Cova manresana. Surge então o trabalho de codificação do arcabouço do que virá a ser mais tarde o original do livro dos EE.

Em 1534, quando dá os EE a Pedro Fabro no esquema já bem estruturado das 4 semanas, pode-se dizer que foi dada a partida para aquilo que será, até os dias de hoje, um meio excelente , dentre tantos outros, para uma espiritualidade mais profunda e mais ligada às necessidades dos fiéis batizados e de tantos outros que não receberam o sacramento, na atual conjuntura de um mundo em que pessoas de todas as religiões anseiam por um Ser Transcendente. Prova disso, o bom livro de um jesuíta americano, Pe. Roger Haight nessa linha e que na tradução em vernáculo apareceu com o título sugestivo de Espiritualidade cristã para buscadores (Vozes, 2015).

3º) Na prática original de dar EE

Acima, já se pôde observar que Inácio, como Mestre em dar EE, ofereceu-os a Fabro, seu companheiro de quarto em Paris, quando este já se preparava para a Ordenação presbiteral. A seguir, irá colocando os outros amigos e primeiros companheiros de vida segundo um projeto definido de seguimento de Jesus, na mesma experiência das 4 semanas. Todos os nove eram clérigos e pronunciaram votos de castidade e pobreza no dia 15 de agosto de 1534, em Montmartre . Contudo, o que se sabe ao certo é que Inácio ao entrar na Itália, no último período de seus estudos teológicos (1535), dá EE também a pessoas leigas ainda sem definição sobre escolha do estado de vida futura. Dará continuidade a essa maneira de conceber os destinatários de seus EE, até os últimos anos de sua vida, já como fundador da nova Ordem. Aproveitava os poucos momentos livres de seus trabalhos na consolidação dela, para expandir o ministério dos EE. Ao mesmo tempo, vai orientando os primeiros Jesuítas nesse serviço apostólico, um dos mais importantes da recém fundada Companhia de Jesus.

Nesses anos, desde a Confirmação da Companhia em 1540, até o ano de sua morte, no ano de 1556, em 16 anos de intenso trabalho, o Pai fundador jamais deixará de exercer com amor o serviço de acompanhar fiéis leigos, em especial aos que intuía e sentia o chamado de Deus para grandes missões na Igreja. O que posso auferir desse empenho zeloso e incansável do “Mestre” é que os seus primeiros discípulos darão continuidade a essa maneira não exclusiva de apresentar a oferta dos EE. Sem precisar até quando irá esse hábito tradicional de extensão aos Leigos, eu suponho que isso aconteceu até o século XVIII, portanto, por uns 200 anos, quando se deu a supressão da Companhia de Jesus. Os Jesuítas em muitos países onde estavam exercendo esse ministério, foram proibidos, mesmo então como padres diocesanos, de “pregar retiros” e publicamente usarem da espiritualidade inaciana em seu serviço pastoral. Com isso, a prática original é simplesmente esquecida. Quando se dá a Restauração oficial e universal da Companhia de Jesus em 1814, tinham se passado 73 anos. Por anos e anos os EE são dados aos Jesuítas em formação e aos já Sacerdotes e Irmãos, como meio para o fortalecimento da vocação. Quando muito, eram também contemplados fiéis que se preparavam para o sacerdócio ou os próprios sacerdotes diocesanos e religiosos e também para muitas Congregações Religiosas femininas. A meu ver, foi um grande hiato de quase dois séculos!

4º) Na restituição de um bem maior

Com a formulação acima, intento mostrar que a graça histórica foi chegando a seu ponto alto, como “volta às fontes” conforme o imperativo da novidade do Concílio Vaticano II (1962 – 1965) a Instituição da nossa Igreja Católica de uma forma geral, valendo portanto à renovação do Instituto da Ordem jesuítica. No que respeitava aos EE, tratava-se de uma conversão às suas origens, conforme a prática de seu criador e idealizador. Ou seja, como Inácio os dava e a que tipo de pessoas dirigiu sempre essa experiência de Deus.

Foi exatamente após o Vaticano II que os Jesuítas, atendendo ao apelo de uma renovação e atualização dos Religiosos no decreto conciliar “Perfectae Caritatis” (Da perfeita caridade), puseram-se a fazer uma profunda revisão de sua presença na Igreja em duas Congregações ou Capítulos Gerais, a de 1965 e de 1970. Nestes dois momentos importantes, os EE teriam que ser contemplados. É evidente que seria revista a maneira como eram dados até ali os EE. O fato é que, após 1966 os até então especialistas em EE iniciaram a expandir , primeiro entre os próprios Jesuítas e pouco a pouco aos Leigos que já eram admitidos aos Retiros de 3 dias na linha dos EE, como alunos dos Colégios, Congregados marianos e outros, o novo modo de encarar uma renovação necessária deles. Lembro-me que em 1969 eu participei em Roma do terceiro curso internacional de dois meses para Jesuítas, sobre essa atualização. O mentor e incentivador de simpósios como este, foi o Pe. Pedro Arrupe, eleito Superior geral da Companhia de Jesus ao final do Concílio.

Não demorou muito para que nos idos dos anos setenta, se iniciassem universalmente as experiências de EE mais alongados com Leigos engajados em serviços nas Obras pastorais da Companhia de Jesus, como em Colégios, Paróquias, Universidades e Centros Sociais. As Comunidades de Vida Cristã (CVX) que nasciam, foram imediatamente incorporadas neste processo renovador.

  1. O QUE ESTÁ HOJE A ACONTECER

Em comunhão com a Igreja hodierna que valoriza a presença atuante do laicato católico, penso que posso logo afirmar que os Jesuítas diretores de Casas de EE aderiram e entraram na corrente deste rico momento eclesial. Passou-se a oferecer a todos os desejosos de aprofundamento espiritual, sem distinções de grau hierárquico, esta pérola inaciana que para muitos fora desconhecida, porque escondida.

Com a nova visão do último Concílio, também todas as dioceses dos quatro continentes modificaram suas pastorais, naquilo que elas exigiam de maior consciência de um laicato chamado a ser “sujeito eclesial”. Por exemplo, aqui no Brasil toda uma reflexão do Episcopado que vem de anos em Assembleias anuais, desembocou na elaboração e votação de um rico documento neste ano de 2018: “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade”. Restringindo o que no mundo se fez e continua se fazendo em termos de formação espiritual do laicato é salutar recordar apenas o que aqui no Brasil os Jesuítas têm se esforçado por empreender.

Penso que não há necessidade de entrar em detalhes sobre o que hoje em dia já está em crescente movimento. Basta que eu confirme o que disse acima, de que se atingiu um momento auge nessa graça do Ministério dos EE, com a maior participação de cristãos leigos e leigas. Assim, apenas elenco a seguir as principais novidades.

 

1) Com respeito à participação em EE que são oferecidos a todos :

  • Já é bem grande o número de Leigos que fazem oito dias de EE e em muitos lugares, com a possibilidade do acompanhamento pessoal diário. Tais leigos, mesmo que em menor número, participam junto à religiosas e sacerdotes.
  • Ainda são poucos, mas há sempre alguns, leigos também, que conseguem tirar um mês de seus afazeres familiares e profissionais para enfrentar as 4 semanas seguidas de EE, em Casas a isso reservadas. Esses EE chamados “de 30 dias” são também com o acompanhamento diário.
  • É crescente o número de participantes das 4 semanas em etapas, em geral montadas só para Leigos, com raras exceções para padres diocesanos. Aliás, esta modalidade é mais condizente com a vida laical. O fato de que se insiste de que entre uma etapa e outra haja continuidade da oração diária, repassando na vida normal – profissional ou familiar- a temática que foi rezada no ambiente recluso da casa de EE, ajuda o leigo e a leiga a dar valor ao que será no futuro, a oração diária.
  • Os EE na vida corrente (EVC), realizados no ambiente normal e com maior proximidade da moradia de cada pessoa, facilitando e respeitando também a realidade laical.

2) Novidade mais recente, de uns vinte anos para cá é esta da atuação leiga como:

  • Acompanhantes de pessoas que fazem os EE, até mesmo de Sacerdotes e Religiosos, nos oito dias e até mesmo nos de mês de EE e nos EVCs.
  • Participantes selecionados previamente para seguirem Cursos de Capacitação em diversos Centros de Espiritualidade Inaciana, visando seja um conhecimento teórico maior dos EE (CAP 1), seja a preparação para acompanhamentos nas diversas modalidades dos EE (CAP 2). Em ambos, o número de Leigos já é mais ou menos igual ao de Religiosos.
  • Participantes em iniciativas promovidas pelos Centros Loyola, simplesmente para um aprofundamento maior de temas ligados aos EE. Houve um tempo em que esses dias em finais de semana eram chamados de CAP Permanente.
  • Até mesmo como Orientadores de EE de oito dias. São mais comuns, os de Leigos dando EE para Leigos; mas já há alguns casos de que Leigas tenham dado EE até para grupos de Jesuítas e com bastante aceitação. Algo impensável 20 anos atrás.
  • Devo colocar também no número desta atuação, o que vem sendo promovido pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), de Belo Horizonte (MG), como uma reflexão teológica sobre os EE e o que a Escola de Formação de Orientadores Espirituais (EFOE) de São Leopoldo (RS). Em ambas, as recentes iniciativas, muitos de nossos colaboradores e membros de CVX têm-se inscrito e, na certa daqui há pouco as práticas acima irão crescer e se estender por toda as regiões do Brasil.
  • Há alguns Leigos que são autores de artigos, na linha da metodologia dos EE. Na prática são pessoas que foram se especializando neles e aceitam colaborar com escritos, seja sobre sua experiência de vivência, seja de temas específicos, em revistas de Espiritualidade Inaciana. No Brasil, já acontece isso, em parceria com a Revista ITAICI.
  • Há Centros Loyola em que a direção ou coordenação de suas atividades, são levadas por leigas especialmente, ou assalariadas ou voluntárias, entregando integral ou parcialmente o seu tempo às Instituições, com a supervisão e assessoramento dos Jesuítas.

3) Finalmente, ainda que não seja exclusivamente para Leigos, é importante que se saiba que estes têm sido ultimamente convidados a colaborar esporadicamente com a Equipe de Jesuítas do recente Centro de Espiritualidade Inaciana, sediado na cidade de Campinas (SP) Centro de Serviço para Colaboração, Fé e Espiritualidade. A mais ou menos um ano, ele vem centralizando toda a vasta dimensão de nosso maior serviço à causa de uma Espiritualidade Inaciana, que visa formar homens e mulheres mais contemplativos e em saída para as necessidades do mundo de hoje.

Posso ter esquecido alguma outra novidade. Contudo, estas são as principais .

  1. CONCLUSÃO AGRADECIDA

Concluindo, digo mui simplesmente: este jesuíta que escreve e penso que todos os leitores, nós todos enfim, estamos movidos agora por uma inominável gratidão. Palavras de agradecimento não bastarão para expressar tudo o que deve estar passando em nosso coração, mais cheio de reconhecimento ao Dom divino. É como Santo Inácio, ao terminar seus EE deixou, em síntese de toda a sua experiência de ter sido alcançado pelo Amor: “…a fim de que reconhecendo-os (os benefícios recebidos de Deus) inteiramente, possa amar e servir em tudo a sua divina Majestade” (EE, 233).

Somos todos receptores de uma imerecida graça do Alto. Nós Jesuítas, alegrando-nos de ver que o sonho de nosso Mestre Inácio ganhou uma expressão renovada, mais segundo as necessidades atuais dos Cristãos Leigos. Vocês, do laicato católico, mais certos de que poderão continuar contando com este meio tão eficaz e muito válido para que possam ser presenças proféticas num mundo hoje tão carente de amor e por isso também de uma esperança mais ativa.

Portanto, de parte a parte, fica o reconhecimento de que aquela “divina Majestade”, expressão tão querida de Inácio para falar da Santíssima Trindade, continuará a nos “alcançar o Amor” (EE, 230), na sua infinita misericórdia. É o convite divino para sermos testemunhas de uma graça recebida imerecidamente, em vista da irradiação do mesmo Amor, no aqui e agora do Reino.

Penso então que podemos juntos colocarmo-nos diante desta Trindade que continua olhando o universo criado ainda necessitado de salvação (EE 102) e repetir mais uma vez, “com toda a afeição“ aquela entrega sem retorno: “Tomai Senhor e recebei…todos os dons que nos destes, com gratidão vos devolvemos… Dai-nos o vosso amor e a vossa graça, que isto nos basta” ( EE, 234 – o plural é meu desejo conclusivo ).

Pe. Paulo Lisboa, SJ