A gestação de um Corpo para a Vida de Deus: um Corpus Christi mariano?


Nesta quinta-feira (31), a Igreja celebra a solenidade litúrgica do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, Corpus Christi. A pedido do Portal Jesuítas Brasil, o padre jesuíta Francys Silvestrini Adão escreveu um artigo sobre esta festa. Confira:

Neste ano, as comunidades católicas do Brasil são postas diante de uma convergência curiosa: de um lado, temos uma solenidade litúrgica – Corpus Christi, a festa do Corpo e Sangue de Nosso Senhor –; de outro lado, temos a expressão do carinho e da piedade popular – o encerramento do mês dedicado a Maria, com as tradicionais coroações. Será que essas duas expressões de fé fazem sombra uma à outra? Ou esta feliz coincidência pode nos ajudar a mergulhar mais profundamente no Mistério celebrado nesses dois momentos festivos? Eu aposto nesta segunda hipótese.

 A solenidade de Corpus Christi é voltada ao aprofundamento de nossa fé e à renovação de nossa gratidão pelo grande dom do mistério eucarístico do Senhor: sua Presença permanente e real no meio de nós, comunidade de fé reunida em Seu Nome; a transformação de nossas ofertas tão pobres – pão e vinho – no Corpo e no Sangue do Senhor, pela força do Espírito Santo; o dom total de Sua Vida como Alimento, entregue nas mãos de seus discípulos, pecadores e amados como nós. Saborear tudo isto é o caminho para entrar no “coração” desta festa! Mas, se quisermos seguir o Senhor em seu amor até o fim, é necessário dar um passo a mais.

“A solenidade de Corpus Christi é voltada ao aprofundamento de nossa fé e à renovação de nossa gratidão pelo grande dom do mistério eucarístico do Senhor […]”

Nosso querido padre João Batista Libânio gostava de nos lembrar: a cada missa, nós pedimos a Deus a realização de dois milagres. O primeiro: que o pão e o vinho que ofertamos sejam transformados no Corpo e no Sangue de Cristo. O segundo: que a comunidade reunida, ao comungar destes dons, seja transformada no Corpo de Cristo. E nosso teólogo alertava: Deus realiza mais facilmente o primeiro milagre, porque o pão e o vinho, já oferecidos, não resistem à transformação. Nós podemos resistir, enquanto não oferecermos como dom, além do pão e do vinho, nossa vida inteira – alegria e tristeza, saúde e doença, qualidades e defeitos – para que o Espírito do Senhor nos una a nossos irmãos e irmãs, formando um só Corpo vivo, no qual Deus escolheu habitar.

É isso o que Maria fez desde o momento em que o Anjo se aproximou dela, revelando-lhe o grande Sonho de Deus. Com o seu “Fiat” – faça-se em mim –, ela entrou nesta imensa “comunidade eucarística” de pessoas que, ao longo da história da salvação, têm oferecido não somente o fruto de seus trabalhos, mas sua vida para que a Vida de Deus seja gestada e alimentada no meio de nós. O corpo-sacrário de Maria e o Corpo entregue de Jesus são um convite para que nós também ousemos nos doar pela vida de nossos irmãos e irmãs, de modo especial os mais pobres. Assim, também poderemos colaborar com a realização daquele salmo tão antigo (Sl 39), citado na carta aos Hebreus (Hb 10,5-7): “Por isso, ao entrar no mundo, Cristo afirma: ‘Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo. Não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. Por isso eu disse: Eis que eu venho. Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’”. Para que o Corpo de Cristo seja gerado em nós, digamos hoje, com Maria: “faça-se em mim segundo a Tua Palavra”!