Pe. Cyril Suresh, um pequeno missionário de Cristo


Nascido na Índia, padre Cyril Suresh Periyasamy (centro da imagem) cresceu em uma família de tradição religiosa hinduísta. Mas conhecer a história de Jesus Cristo levou-o ao Catolicismo, sendo batizado aos 17 anos. Durante o curso de graduação em Matemática, na faculdade jesuíta St. Joseph’s College (Trichy), tomou contato com a espiritualidade inaciana, despertando seu desejo de entrar para a Companhia de Jesus. Há sete anos em missão no Brasil, o jesuíta contou um pouco da sua história em entrevista ao informativo Em Companhia.

Conte-nos um pouco de sua história.

Venho da região sul da Índia, onde há uma longa tradição cristã, inaugurada pelo apóstolo São Tomé (século II) e revigorada por São Francisco Xavier (1506-1552). Pe. Antonio Criminali (1520-1549), sucessor de Xavier e o primeiro mártir, Roberto de Nobili (1577-1656), São João de Brito (1647-1693), Constantine Joseph Beschi (1680-1747), Louis-Marie Leveil (1884-1973) e tantos outros jesuítas, missionários europeus, também ricamente evangelizaram a região sul da Índia ao longo dos séculos. A Companhia de Jesus está presente aí desde sua fundação, em 1540.

Nasci em 1980, ano em que a Índia tinha apenas 33 anos de independência do regime inglês e em que a líder carismática Indira Gandhi (1917-1984) era primeira-ministra, numa pequena aldeia da cidade montanhosa Yercaud, cujo apelido é joia meridional, situada no estado Tâmil Nadu. Primeiro de dois irmãos, sou de uma família de tradição religiosa hinduísta. Meu avô paternal era um sacerdote do templo em Yercaud. Meus pais, piedosos e humildes, trabalhavam na plantação de café.

Os estudos feitos em escolas católicas marcaram-me. De 1986 a 1995, meu irmão e eu estudamos em St. Joseph’s School (Yercaud). De 1996 a 1998, conclui o Ensino Médio em St. Paul’s School (Salem). Em 1999, comecei os estudos universitários em St. Joseph’s College (Trichy), uma faculdade jesuíta. Em 2002, graduei-me em Matemática, e, no mesmo ano, ingressei no noviciado da província Madurai (MDU) da Companhia de Jesus.

Qual a razão de o senhor ter sido batizado aos 17 anos de idade?

A razão de ter sido batizado é uma narrativa da minha história. O constante contato com pessoas de outras religiões, desde minha infância até a juventude, ajudou-me a solidarizar-me com outros.

Na minha adolescência, despertou em mim uma curiosidade especial para saber mais sobre Jesus. Na escola, além de participar de diferentes momentos de oração, retiro, arte, teatro, coral e estudo da Bíblia, o diretor do colégio confiou-me o cargo de cuidador da capela. Na tentativa de ver e crer nas leituras bíblicas e mistérios cristãos, o meu amor começou a inflamar-se. Foi uma paixão inexplicável, um amor cativante. Foi uma novidade envolvente, ao mesmo tempo em que sentia medo e forte vazio. A consciência de meus pecados, de minha vacuidade e de minha pequenez fomentou, em mim, uma inquietude comparada a um pêndulo que oscilava entre continuar sendo hindu ou tornar-me cristão. Esse período de enlouquecimento e tempestade durou quase dois anos (1996-97). Ao final, uma entrega total à pessoa de Cristo me deixou numa paz interior. Essa foi a razão que me levou ao batismo aos 17 anos. O dia de meu batismo, 24 de maio de 1997, é inesquecível na minha vida.

“Na minha adolescência, despertou em mim uma curiosidade especial para saber mais sobre Jesus”

Sabemos que, na Índia, o cristianismo é minoria. Como isso afeta as relações na sociedade indiana?

A Índia, cuja população chega a 1,3 bilhão, tem uns 30% que são indígenas. No país, os cristãos são 2,3%, isto é, 29 milhões. Predominantemente, há um convívio pacífico entre cristãos católicos e as demais confissões.

Quero ilustrar num fato concreto. Uma mulher viúva cristã perdeu seu marido e decidiu doar os olhos dele. Eles foram transplantados num soldado muçulmano, que havia perdido seus olhos numa operação militar, na região conflituosa Jammu-Kasmir. O transplante foi realizado por um cirurgião hindu. O soldado, depois de sua recuperação, cheio de gratidão, marcou um encontro com a viúva cristã e o cirurgião hindu. Vendo os olhos vivos de seu marido no rosto muçulmano, a viúva não parou de derramar lágrimas. Foi muito emocionante. Para mim, os três – a mulher cristã, o soldado muçulmano e o cirurgião hindu – são um verdadeiro testemunho de amor e diálogo vivo, em que a relação fraterna unifica pessoas e religiões, no seu sentido pleno, re-ligando um com outro. É um sinal vivo do Reino de Deus.

Acontecimentos semelhantes não são difíceis de serem encontrados na Índia, apesar de tensões religiosas. O governo atual da Índia é fanaticamente hinduísta. O seu modo de agir está ameaçando os cristãos e os muçulmanos, que são minorias. Os radicalistas fanáticos hindus causaram danos morais e físicos às obras apostólicas cristãs. Em 2017, mais de 700 incidentes criminosos contra os cristãos foram registrados em todo o país. Ninguém foi morto. Então, temos bastante trabalho pastoral para evitar esse perigo, como fez Madre Teresa (1910-1997), que é um grande testemunho em meio a esse pluralismo religioso. O espírito sagrado da não violência (ahimsa) continua a existir na história da Índia (mais de 4.000 anos), onde nasceram quatro importantes religiões do mundo: Hinduísmo, Budismo, Jainismo e Sikhismo.

Como conheceu a Companhia de Jesus?

Ao terminar o Ensino Médio, ganhei uma bolsa de estudos na Faculdade Jesuíta St. Joseph’s College para cursar Matemática (1999-2002). Durante os estudos, fui novamente sacristão na capela da faculdade e ajudei no trabalho pastoral dos jesuítas. Cativado pela amizade de jesuítas, procurei acompanhamento espiritual. Os padres jesuítas Joseph e Rex Pai foram meus orientadores espirituais durante meus estudos nesta faculdade.

Tinha familiaridade com os salesianos, os franciscanos, os carmelitas, que trabalhavam na cidade. Contudo minha relação com os jesuítas foi determinante. A espiritualidade inaciana inspirou-me com os exemplos de Francisco Xavier e João de Brito. Inevitavelmente, nessa fase adulta, veio-me o desejo de tornar-me jesuíta, para amar e servir o mundo. Fiquei muito feliz quando entrei no noviciado da Society of Love (Companhia de Amor).

Como aconteceu a sua vinda ao Brasil?

Tendo feitas as primeiras etapas de formação na Índia, mal comecei a Teologia e, logo, Pe. Devadoss, SJ, o provincial, chamou-me para uma conversa. Ele tinha recebido uma carta-convite do Pe. Roberto Jaramillo Bernal, SJ, então superior da Região Brasil Amazônia, na qual pedia jesuítas jovens para o trabalho apostólico da Companhia de Jesus no Brasil. Ele entregou-me essa carta e pediu-me para rezar sobre o assunto. No início, eu não podia aceitar. Os dois maiores empecilhos eram o linguístico e o cultural. Depois de dois meses, conversei com o provincial. Revisitando meu trajeto vocacional, ele destinou-me. Eu não tinha nada para dizer senão o “sim” tímido.

“Em junho de 2011, cheguei a Manaus (AM), sendo acolhido no companheirismo universal dos jesuítas”

Em junho de 2011, cheguei a Manaus (AM), sendo acolhido no companheirismo universal dos jesuítas. Os padres Adelson Araújo dos Santos, João Renato Eidt, Ronaldo Colavecchio, Héber Salvador Condé de Lima e José de Souza Mendes ajudaram-me para aprender o idioma, tirar os documentos de identidade e o visto permanente. Outros companheiros jesuítas ensinaram-me a vida pastoral e o contexto da missão. A hospitalidade do povo brasileiro é incomparável. Em 2012, recomecei os estudos de Teologia em Belo Horizonte (MG). Os professores jesuítas e os formadores incentivaram-me bastante. Meus orientadores espirituais, padres David Homero e Johan Konings, acompanharam-me pacientemente. Em 2014, terminando a Teologia, fui ordenado diácono. Em janeiro de 2015, fui ordenado presbítero na província de Madurai, na Índia. Como padre jovem, estive em Manaus e em Juiz de Fora (MG), trabalhando na pastoral.

Qual a sua linha de estudo no mestrado em Teologia na FAJE?

Meu projeto pertence à área de Teologia Sistemática, cuja linha de pesquisa é Fontes Bíblicas da Tradição Cristã. O foco do meu mestrado é investigar o novo mandamento de Jesus, segundo João (13,34-35). Quer-se entender que a novidade desse mandamento de Jesus, no nosso contexto pastoral, indispensavelmente interpela nossa consciência em prol do amar e do servir. Isso não consiste tanto na palavra, mas sim na ação concreta da vida autêntica. A fonte inesgotável do amor de Deus manifesta-se na vida de serviço de Jesus, o Filho amado e encarnado.

Com esse estudo, o senhor acredita que possa contribuir para o enriquecimento da Teologia e do diálogo inter-religioso?

Com o norteamento dos decretos das Congregações Gerais recentes (35ª e 36ª), nós, jesuítas, sabemos muito bem a importância de trabalhar em rede, de colaborar com os outros, de promover a reconciliação e a justiça e de fortalecer o diálogo com religiões, com pobres – migrantes, refugiados, índios, excluídos – e com as culturas. Sem pretensão grandiosa, eu acredito que a minha contribuição seja um pequeno gesto de buscar a vida comunitária inspirada pelo evangelho e pela espiritualidade bíblica, no caminho de diálogo inter-religioso, intercultural, interdisciplinar e no caminho de colaboração com outros, em níveis interpessoal, internacional e interinstitucional.

Hoje, sou um cristão-católico, com origem marcada pelo Hinduísmo. A mística oriental, que está em mim, ajuda a aproximar-me de Cristo de uma maneira intensa e inigualável. Com gratidão, estou completando 20 anos como cristão, 16 anos como jesuíta, quatro anos como padre. Sou um pequeno missionário de Cristo!

 

*Esta entrevista foi publicada na 43ª Edição do informativo Em Companhia (Abril 2018). Quer ler a edição completa? Então, clique aqui!