Escritório jesuíta acolhe migrantes venezuelanos


Escritório do Serviço Jesuíta aos Migrantes e Refugiados, em Boa Vista, foi inaugurado em janeiro

No início do ano, o Serviço Jesuíta aos Migrantes e Refugiados – SJMR Brasil inaugurou o escritório de Boa Vista (RR), o terceiro no País. Esse novo espaço encontra-se onde, hoje, está o maior fluxo de migrantes que atravessam as fronteiras brasileiras. Dentre eles, há um grande número de venezuelanos que deixaram a Venezuela por causa da situação socio-político-econômica do país, que se agravou nos últimos meses. O Pe. Agnaldo Pereira Oliveira Júnior, diretor nacional do SJMR Brasil, diz que a iniciativa de fundar o escritório nasceu do desejo de ser presença junto aos mais necessitados. “Queremos ser um porto seguro para os migrantes e solicitantes de refúgio no Brasil, um lugar onde as pessoas possam sentir-se acolhidas, protegidas e apoiadas em suas demandas”, afirma.

Atualmente, segundo Cleyton Abreu, coordenador do escritório de Boa Vista, os dois maiores desafios que essas pessoas enfrentam ao chegar no Brasil estão relacionados à fome e à falta de moradia. “A acolhida na cidade é precária por parte do poder público, pois existem apenas dois abrigos públicos. Outro problema é a fome, muitas pessoas chegam desnutridas e não existe uma ação social sistêmica para poder protegê-las. Então, elas são apoiadas pela sociedade civil ou pelas igrejas”, afirma. Ele cita outra questão, a falta de inclusão nos espaços sociais como escolas, hospitais etc. e diz que “existe muita xenofobia, muito preconceito e os migrantes acabam sendo deixados de lado”.

Nesse contexto, para acolher e estar mais próximo dessas pessoas, o escritório atua por meio de três áreas centrais: Setor de Proteção (social e jurídica), Setor de Incidência, junto ao poder público e à sociedade civil; e Setor de Inserção Laboral (qualificação profissional e ponte entre empregadores e migrantes). “Aqui, nós ajudamos de diversas formas, especialmente com a regularização migratória, com documentação, seja para carteira de trabalho, para solicitação de refúgio, para residência. Apoiamos também questões que envolvam a inserção no mercado de trabalho e damos suporte na elaboração de currículos e mediação para trabalho. Essas têm sido nossas principais ações diretas de atendimento. Além disso, atuamos por meio da incidência política, que é feita no legislativo estadual, especialmente, mas também em todo o âmbito da administração pública”, explica Cleyton.

Padre Agnaldo reforça que, em Boa Vista, os migrantes e refugiados demandam mais presença da sociedade civil articulada. “Nossa presença na fronteira deseja contribuir com as outras forças que também se encontram naquela região, para promover a ‘globalização da esperança’ frente à globalização da exclusão e da indiferença, como nos convidou o Papa Francisco durante o encontro com os Movimentos Populares, realizado na Bolívia, em 2015. Ou seja, precisamos ser pontes e não muros”, ressalta.

O espaço inaugurado na capital roraimense vai ao encontro do apelo de Francisco e visa construir pontes. A iniciativa não foi pensada isoladamente, mas, sim, em parceria com a Fundação Fé e Alegria, que colaborará nessa missão de acolhida. Padre Agnaldo explica que as crianças migrantes que estão nos abrigos não têm nenhuma atividade e muitas não têm certeza se terão acesso à escola formal. Assim, Fé e Alegria Brasil topou o desafio de atender essa demanda e partir também para Boa Vista. “Dividimos o mesmo espaço de atuação, tendo salas destinadas às atividades de cada instituição. As duas equipes estão trabalhando de forma conjunta e apoiam-se mutuamente. Enquanto o SJMR desenvolve seu trabalho de proteção e promoção mais geral para as famílias e pessoas migrantes e solicitantes de refúgio, Fé e Alegria, por meio da defesa do direito à educação de qualidade, desenvolve seu trabalho de oferecer a essas crianças migrantes momentos formativos, que ajudam na integração à cultura brasileira e no fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários”, afirma.

“Queremos ser um porto seguro para os migrantes e solicitantes de refúgio no Brasil, um lugar onde as pessoas possam sentir-se acolhidas, protegidas e apoiadas […]”

Padre Agnaldo

O Pe. Pedro Pereira da Silva, diretor presidente nacional de Fé e Alegria, explica que, antes de ser uma fundação, Fé e Alegria é um movimento de Educação Popular Integral e de Promoção Social e, por isso, vai sempre ao encontro da população mais vulnerável. “Nesse momento, em que explode em nosso País o fenômeno das migrações e dos refugiados venezuelanos, Fé e Alegria do Brasil vem com o serviço socioeducativo e de incidência política. Essa atuação visa assegurar às famílias o serviço de proteção básica de caráter protetiva (apoiar e defender), preventiva (impedir atos de violência, xenofobia e ausência de direito) e proativa (empoderamento) frente à situação de vulnerabilidade ou risco social aos migrantes e refugiados”, diz.

Segundo o coordenador da Unidade de Fé e Alegria Boa Vista, José Romero, a atuação da instituição será importante na região. “Nosso trabalho é desenvolver um processo de Educação Popular integral e Promoção Social que permita a atenção especial às crianças, jovens e suas famílias migrantes em situação de vulnerabilidade. Nosso intuito é gerar oportunidades para essas pessoas, favorecendo a integração social, semeando valores, melhorando sua qualidade de vida, incorporando a aprendizagem, por meio da arte e da recreação como forma de inclusão. Além disso, ajudá-los a desfrutar os direitos que a constituição e as leis fornecem aos migrantes e refugiados”, conta ele, que também é migrante venezuelano. Os desejos e as expectativas para essa missão são muitos, mas um, em particular, expressa o sentimento de todos os colaboradores, voluntários e jesuítas envolvidos com a iniciativa: “queremos ser sinal de esperança”, finaliza José Romero.

Serviço Jesuíta aos Migrantes e Refugiados no Brasil

Quer saber mais sobre o Serviço Jesuíta aos Migrantes e Refugiados no Brasil? Então, acesse www.jesuitasbrasil.org.br/SJMR e leia uma entrevista exclusiva com o padre Agnaldo Júnior.
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*Essa matéria foi publicada na 42ª Edição do informativo Em Companhia (Março 2018). Quer ler a edição completa? Então, clique aqui!