Entrevista com Luiz Beltrão, autor do livro Um caminho pela arte: EE na vida cotidiana


O livro Um caminho pela arte – Exercícios espirituais na vida cotidiana, obra recém lançada pela Edições Loyola, é uma adaptação dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, na modalidade de Exercícios na Vida Cotidiana (EVC) – oração inserida na vida do exercitante. Porém, o grande diferencial da obra é a proposta da arte como facilitadora no encontro com Deus. Nesse sentido, o autor Luiz Beltrão sugere músicas, poesias, filmes e ilustrações que ajudarão as pessoas em seu caminho de fé.

Em entrevista a 35ª Ed. do informativo Em Companhia, ele contou um pouco mais sobre a obra, quais as motivações que o impulsionaram a escrever o livro e como a obra poderá ajudar as pessoas. Confira!

Qual foi a sua motivação para escrever o livro? O que o inspirou?

A ideia dessa publicação surgiu após ter recebido de presente de minha esposa, quando de uma viagem à Argentina em 2009, o livro El mês de Ejercicios Espirituales de San Ignacio de Loyola em La vida corriente, de Javier Sagüés e Francisco Javier Cortabarría, Ed. Mensajero, 2005. Como se tratava de um material extremamente rico, repleto de subsídios que nós não conhecíamos ou utilizávamos, comecei a traduzi-lo, pensando já em oferecê-lo a exercitantes. A motivação, portanto, foi compartilhar essa riqueza de materiais e sua beleza com os exercitantes.

No entanto, o que era tradução literal logo começou a sofrer adaptações. Passei a incorporar não apenas materiais de outras fontes, como também incluir percepções próprias, frutos de minha experiência. Em particular, creio muito no poder da arte como trampolim para o mergulho em Deus. Daí a ideia de utilizar músicas, poesias, filmes e ilustrações que, talvez, possam ajudar na abertura para o Mistério. A partir da aplicação desse material, desde 2011, e das percepções recolhidas por outros acompanhantes que o utilizavam, esse texto foi sendo lapidado, ao ponto de, hoje, ter se distanciado bastante do original espanhol, embora ainda guarde com ele certa similitude.

Na apresentação da obra, você afirma que a publicação é uma adaptação criativa dos EE. Por quê?

A maior parte da aplicação dos EE ocorre por meio de textos, seja de livros, fichas ou filipetas. Nesse livro, além desses materiais escritos, sugiro o recurso às artes, como filmes, poesias, músicas e ilustrações. Acredito que as artes podem despertar ou potencializar realidades adormecidas no interior do exercitante e causar neles efeitos positivos, como em sua sensibilidade, em sua imaginação ou concentração. Isso pode ajudar a mergulhar no encontro com Deus. Santo Inácio era criativo. Sei que ele apoia a diversidade de meios, desde que levem o exercitante ao encontro com o Deus de Jesus Cristo.

“A maior parte da aplicação dos EE ocorre por meio de textos, seja de livros, fichas ou filipetas. Nesse livro, além desses materiais escritos, sugiro o recurso às artes, como filmes, poesias, músicas e ilustrações.”

Como o livro foi organizado? Para qual público o livro é indicado?

O livro começa com uma série de textos que têm por objetivo explicar, em linhas gerais, ao exercitante o percurso e a metodologia dos exercícios inacianos. Assim, são apresentadas o que chamo de Orientações gerais para a viagem, que oferecem dicas sobre organização do tempo e do espaço, seguidas dos passos da oração, de orientações sobre a revisão da oração e sobre o encontro com o acompanhante. Essa parte inicial termina com conselhos para a partilha dos Exercícios em grupos, como o acolhimento, o sigilo sobre o que é partilhado e a necessidade de não procurar dar soluções para os problemas ou interferir na partilha do outro.

Em seguida, e antes de entrarmos nos Exercícios propriamente ditos, propomos cinco semanas de preparação, tempo por nós percebido como suficiente para que os exercitantes adquiram a prática da oração diária, a familiaridade com o método de oração inaciana, a confiança no grupo e, o que é mais importante, a intimidade com Deus. É claro que esse tempo pode ser menor ou mesmo maior, dependendo dos frutos percebidos. O uso do livro exige discernimento; o ‘tanto quanto’ é essencial para, de um lado, não estorvar o exercitante com o excesso de materiais e, de outro, ‘não se adiantar ao Espírito’, indo depressa demais.

Após isso, os exercícios se desenrolam como em outros manuais de EVC, começando pelo Princípio e Fundamento, passando pelas 4 Semanas e concluindo com a Contemplação para Alcançar o Amor. Ao longo desse esquema geral, são propostas 42 semanas, entre meditações e contemplações, o que dá pouco menos de um ano ininterrupto de prática.

Para finalizar, como um arremate, o livro apresenta três textos: uma mensagem de despedida — A espiritualidade que nasce dos Exercícios; conclusões práticas a serem aplicadas na vida cotidiana pós-exercícios; e uma oração final, de autoria do Padre Irala, fundador do Grupo OPA – Oração pela Arte.

Creio que o livro é mais indicado para jovens maduros, ou seja, jovens acima de 25 anos, bem como para o público adulto. Os EVC são exigentes, pois costumam durar muitos meses, o que pode não ser adequado para um público mais novo, que demanda uma forma mais dinâmica de vivência. Além disso, as músicas, as poesias e os filmes sugeridos partiram de minha experiência, um jovem de 46 anos.

O livro serve como material de base para a vivência dos EVC, por isso você ressalta que ele não é para ser lido, mas sim praticado sob acompanhamento. Como seria isso?

As adaptações dos Exercícios Espirituais são muitas ao longo da história: 30 dias, 8 dias, em etapas, na vida corrente. Uma característica, porém, comum a todas elas é a presença de um acompanhante, um irmão ou irmã na fé que já passou pelo processo dos EE, conhece sua dinâmica e que acompanhará o exercitante em sua caminhada. Santo Inácio faz tantas referências ao acompanhante no livrinho dos EE, que ousamos dizer que, sem sua presença, não se fazem propriamente os Exercícios Espirituais inacianos.

É claro que o exercitante pode ler o livro dos EVC e fazê-los individualmente, mas, com isso, perderia grande riqueza e correria o risco de armadilhas, como ilusões, autojustificativas e autoenganos, pois a presença e a orientação do acompanhante oferecem um ‘olhar de fora’, capaz de perceber diferentes aspectos da caminhada do exercitante e orientá-lo para que não caia em falsas projeções do ego e melhor perceba a voz de Deus.

Uma das formas que tem se demonstrado fecunda é o acompanhamento de EVC em grupos. Na verdade, os exercícios são feitos individualmente, no tempo e no local escolhido pelo exercitante. Porém, as partilhas ocorrem em grupo. Uma das riquezas dessa forma é o apoio mútuo que o grupo se dá, além da riqueza da partilha de experiências. Muitas vezes, o caminho do outro ajuda o exercitante a perceber seu próprio caminho e a se situar melhor no processo dos EVC e a encontrar saídas e iluminações para seu caminhar.

Nossa experiência mostra que esse acompanhamento nos EVC deve ser semanal, ao menos ao longo das primeiras semanas, quando é necessário internalizar-se bem a metodologia e acompanhar, de perto, o processo, para que os ajustes ocorram de maneira mais precoce. Com o tempo, é normal, e até desejável, o acompanhamento ser quinzenal, pois cria mais espaço e autoconfiança ao exercitante, que estará mais maduro no percurso, independendo, portanto, desse acompanhamento mais de perto.

Mas devemos lembrar que quem realmente guia o processo é o Espírito de Deus, que se comunica diretamente com o exercitante [EE 15]. O acompanhante deve, antes de tudo, não atrapalhar esse processo e, se possível, ajudar o exercitante a percebê-lo.

Em sua opinião, como a arte pode ajudar no aprofundamento da prática dos EE?

A arte tem o condão de despertar potências espirituais, como o desejo, a imaginação, a sensibilidade, a criatividade, a memória… De tudo isso se serve Deus e, em particular, Santo Inácio nos EE. Lembre-se da aplicação dos sentidos, da composição do lugar, do colocar-se na cena. Santo Inácio era muito visual; todos sabemos o quanto sua ida a Jerusalém o ajudou a viver e a compor os Exercícios Espirituais.

Se não temos as mesmas possibilidades de conhecer a Terra Santa e os lugares por onde Jesus passou, temos, então, a necessidade de recursos que driblem essa limitação e nos ajudem a mergulhar profundamente na experiência.

Por isso, o recurso às artes, se bem orientado, pode também favorecer experiências sensoriais profundas que ajudarão o exercitante no mergulho no Mistério. Imaginem-se as possibilidades do cinema, das imagens, das músicas — como no caso dos mantras e dos refrãos que insistem em permanecer em nosso pensamento ao longo do dia.

Mais ainda, a arte funciona como um respiro, um refrigério em nosso mundo tão acinzentado pela técnica e pelo concreto. Assim, constitui como que asas, colocando-nos em contato com aquelas outras energias que os Exercícios Espirituais tentarão canalizar para a bandeira de Cristo e o compromisso com o seu Reino.

Isso porque a arte fala do belo e da beleza, do que Deus é fonte e autor. Se apreciada com as devidas lentes, ela lança ao assombro, ao espanto e à admiração. Assombro não no sentido de medo, mas de entusiasmo, de encantamento, de vigor e juventude espiritual, de onde brotam o louvor, a reverência e o serviço. Qualquer semelhança com o Princípio e Fundamento não é mera coincidência.

Mais ainda. A arte nos remete a uma realidade gratuita e doada, tão maior que nós mesmos, que a única atitude condigna é a gratidão, a ação de graças. Reconhecer e saborear a beleza da criação e o próprio Autor da beleza presente nela, para com ele se integrar no projeto de consumação da História, “para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15,28). Não é essa a proposta da Contemplação para Alcançar o amor?

“[…] a arte funciona como um respiro, um refrigério em nosso mundo tão acinzentado pela técnica e pelo concreto. Assim, constitui como que asas, colocando-nos em contato com aquelas outras energias que os Exercícios Espirituais tentarão canalizar para a bandeira de Cristo e o compromisso com o seu Reino.”

Enfim, se Deus é o Grande Artista, que plasmou a criação de acordo com sua vontade, cabe-nos, como continuadores e artífices de sua obra, trabalharmos com Ele e como Ele, com arte e sensibilidade para que essa mesma criação seja guardada e cultivada e seus frutos, usufruídos dignamente por todos. Em última instância, é exatamente para isso que servem os Exercícios Espirituais: que descubramos como e com que arte (talentos, recursos, meios, dons, projetos e escolhas) devemos colaborar com Cristo e nos inserir, criativamente, na construção do seu Reino.

Em uma parte do livro, há a oração do exercitante, que, por sinal, é muito bela e singela. Qual a história dessa oração?

A Oração do exercitante nasceu da necessidade de tornar prece a atitude necessária de abertura, generosidade e entrega a Deus e à proposta dos Exercícios. Na linha do Peregrino, é uma oração que plasma no exercitante o desejo insaciável de ir sempre além, de não se contentar com o posto alcançado, mas de desejar o magis, avançar para águas mais profundas e para céus mais altos. Sem esse desejo, essa abertura e generosidade, os Exercícios são feitos mecanicamente e não rendem os frutos pretendidos pelo Espírito. Por isso, é necessário colocar esse desejo em oração, o que pressupõe a livre ação de Deus e o compromisso do próprio exercitante com o caminho que começa a percorrer.

Uma parte importante dessa Oração tem como inspiração Santo Alberto Hurtado, onomástico de nossa CVX, conhecido por ser “fogo que acende outros fogos” e por sua indissociabilidade entre fé e justiça, entre amor a Deus e serviço ao próximo, em especial aos mais pobres. Acho temerário que os Exercícios Espirituais caiam numa espiritualidade desencarnada, descomprometida com a libertação dos pobres, com a justiça social. Nada mais distante da espiritualidade inaciana que deriva, como não poderia deixar de ser, da espiritualidade da Encarnação e de Cristo, que escolheu ser pobre e desde os pobres anunciar e realizar sua obra. A Oração do Exercitante, frequentemente retomada no livro, ajudará para que essa perspectiva não seja perdida e os Exercícios Espirituais tornem-se compromisso com uma realidade que clama por ser transformada e redimida pelo amor-justiça do Cristo.

Você gostaria de pontuar mais alguma coisa?

Como todo manual de EVC, esse livro tem seus méritos e suas fragilidades. Mas, se a partir de seus limites, esse material servir de inspiração para aplicações mais adequadas e fecundas dos EE, ele terá servido ao seu propósito. Oxalá, esse livrinho possa encorajar outras experiências, como, por exemplo, Exercícios Espirituais por meio do Cinema, ou por meio da música. Possa inspirar oficinas de dança, de teatro, de poesias, ou mesmo vivências e dinâmicas sensoriais em grupos de oração e partilha. As possibilidades são infinitas, considerando que o Autor de toda inspiração é também infinitamente criativo.

SERVIÇO

Livro: Um caminho pela arte – Exercícios espirituais na vida cotidiana
Autor: Luiz Beltrão
Editora: Edições Loyola
Clique aqui e adquira o seu exemplar!

Confira como foi o lançamento do livro, que aconteceu no CCB (Centro Cultural de Brasília), no dia 24 de maio: