Discurso do Papa Francisco aos membros da 36ª CG

Pontífice falou aos jesuítas durante a Congregação Geral da Companhia de Jesus

Aula da Congregação Geral – Cúria Geral da Companhia de Jesus (24 de outubro de 2016)

Queridos irmãos e amigos no Senhor:

Ao rezar pensando no que lhes diria, relembrei, com particular emoção, as palavras finais que nos disse o Beato Paulo VI ao finalizar a nossa CG 32: Assim, assim, irmãos e filhos. “Vamos em frente, em nome do Senhor. Caminhemos juntos, livres, obedientes, unidos no amor de Cristo, para a maior glória de Deus”.

Igualmente, S. João Paulo II e Bento XVI nos têm animado a “caminhar de maneira digna da vocação à qual fomos chamados (Ef 4,1) 2 e a “prosseguir pelo caminho da missão com plena fidelidade a vosso carisma originário, no contexto eclesial e social, característico deste início de milênio. Como vos têm falado em várias ocasiões meus predecessores, a Igreja precisa de vós e continua confiando em vós, de modo especial, para alcançar os lugares físicos e espirituais aonde outros não conseguem chegar ou lhes resulta difícil fazê-lo”. Caminhar juntos, livres e obedientes – caminhar indo às periferias onde outros não alcançam, “sob o olhar de Jesus e mirando o horizonte, que é a glória de Deus sempre maior, aquele que sempre nos surpreende”. O jesuíta é chamado para “discorrer – como diz Inácio− e fazer vida em qualquer parte do mundo onde se espera maior serviço de Deus e ajuda das almas” (Cor 304). Porque “Para a Companhia, o mundo todo há de ser a sua casa”, dizia Nadal.

Inácio escrevia a Borja, a propósito de uma crítica dos jesuítas chamados “angélicos” (Oviedo e Onfroy), porque diziam que a Companhia não estava bem instituída e porque havia que instituí-la mais em espírito: o espírito que nos guia –dizia Inácio ─ “ignora o estado de coisas da Companhia, que se encontram in fieri (em construção), fora do necessário (e) substancial”. Gosto tanto desse modo de Inácio ver as coisas em devir, fazendo-se, fora do substancial. Porque tira a Companhia de todas as paralisias e a libera de tantas veleidades.

A Fórmula do Instituto é o “necessário e substancial” que devemos ter todos os dias diante dos olhos, depois de olhar Deus, nosso Senhor: “O modo de ser do Instituto, que é o caminho para Ele”. Foi o caminho “para os primeiros companheiros e eles previram que o fosse para os que nos seguirem por este caminho”. Assim, tanto na pobreza como na obediência, o fato de não estarmos obrigados a coisa como rezar em coro, não são nem exigências nem privilégios, mas ajudas que fazem a mobilidade de Companhia, ao estar disponíveis “para correr pela via do Cristo Nosso Senhor” (Cor 582), tendo, pelo voto de obediência ao Papa, uma “mais segura direção do Espírito Santo” (Fórmula Instituto 3). Na Fórmula, está a intuição de Inácio e sua substancialidade é o que permite que as Constituições façam ênfase no levar sempre em conta “os lugares, tempos e pessoas”, e que todas as regras sejam ajudas — tanto quanto — para as coisas concretas.

“Caminhar, para Inácio, não é um simples ir e andar, mas se traduz em algo qualitativo: é aproveitamento e progresso, ir adiante, fazer algo em favor dos outros”

Caminhar, para Inácio, não é um simples ir e andar, mas se traduz em algo qualitativo: é aproveitamento e progresso, ir adiante, fazer algo em favor dos outros. Assim o expressam as duas Fórmulas do Instituto, aprovadas por Paulo III (1540) e Julho III (1550), quando focam a ocupação da Companhia na fé – em sua defensa e propagação — e na vida e doutrina das pessoas. Aqui, Inácio e os primeiros companheiros utilizam a palavra “aproveitamento” (ad provectum 7, cfr. Fil 1,12 e 25), que é a que dá o critério prático de discernimento próprio da nossa espiritualidade.

O aproveitamento não é individualista, é comum: “O fim desta Companhia é, não apenas atender à salvação e perfeição das almas próprias com a graça divina, mas com ela, intensamente, procurar ajudar a salvação e perfeição das almas dos próximos (Ex 1,2). E, se para algum lado inclinava-se a balança no coração de Inácio, era para a ajuda aos outros; tanto é assim que se enfadava se lhe diziam que o motivo para alguém permanecer na Companhia era “para que assim salvasse a sua alma”. Inácio não queria gente que, sendo boa para si, não tivesse aptidão para o serviço do próximo (Aicardo I ponto 10 pg. 41).

O aproveitamento dá-se em tudo. A fórmula de Inácio expressa uma tensão: “não só … mas…”; e esse esquema mental de unir tensões – a salvação e perfeição própria, e a salvação e perfeição do próximo — do âmbito superior da Graça, é próprio da Companhia. A harmonização desta e de todas as demais tensões (contemplação e ação, fé e justiça, carisma e instituição, comunidade e missão…) não se dá mediante formulações abstratas, mas se consegue ao longo do tempo mediante aquilo que Fabro chamava “nosso modo de proceder”. Caminhando e “progredindo” no seguimento do Senhor, a Companhia vai harmonizando as tensões que contêm e produzem, inevitavelmente, a diversidade de gentes que convoca e as missões que recebe.

O aproveitamento não é elitista. Na Fórmula, Inácio procede descrevendo meios, para aproveitar mais universalmente, que são propriamente sacerdotais. Porém, notemos que as obras de misericórdia dão-se por descontadas, a Fórmula diz “sem que isso seja obstáculo” para a misericórdia. As obras de misericórdia – no cuidado dos enfermos nas hospedarias, a esmola mendigada e repartida, o ensino às crianças, o sofrer com paciência as moléstias – eram o meio vital no qual Inácio e os primeiros companheiros moviam-se e existiam, seu pão cotidiano: cuidavam para que tudo o mais não fosse obstáculo! O que permite que as Constituições enfatizem levar sempre em conta “os lugares, tempos e pessoas” e que todas as regras sejam ajudas, tanto quanto, para coisas concretas.

O aproveitamento, finalmente, é “o que mais aproveita”. Trata-se do MAGIS, desse plus, que leva Inácio a iniciar processos, a acompanhá-los e a avaliar a sua real incidência na vida das pessoas, ora se trate de questões de fé, ora de Justiça ou misericórdia e caridade. O MAGIS é o fogo, o fervor na ação, que sacode sonolências. Nossos santos sempre encarnaram isso. Diz-se que Sto. Alberto Hurtado era “um dardo aguçado” que se crava nas carnes adormecidas da Igreja”. Isso contra aquela tentação que Paulo VI chamava de “spiritus vertiginis” (síndrome de vertigem) e de Lubac, “mundanidade espiritual”. Tentação que não é, em primeiro lugar, moral, mas espiritual, e que nos distrai do essencial: que é ser aproveitáveis, deixar marca, incidir na história, especialmente na vida dos mais pequenos. “A Companhia é Fervor”, dizia Nadal. Para reavivar o fervor na missão de aproveitar as pessoas na sua vida e doutrina, desejo concretizar estas reflexões em três pontos que, dado que a Companhia está nos lugares de missão onde tem de estar, fazem maior bem ao nosso modo de proceder. Têm a ver com a alegria, com a Cruz e com a Igreja, nossa mãe; e visam a dar um passo à frente, tirando os empecilhos que o inimigo da natureza humana põe-nos quando vamos, no serviço de Deus, de bem a melhor, subindo.

1) Pedir a intensamente consolação

Sempre é possível dar um passo à frente no pedido insistente da consolação. Nas duas Exortações Apostólicas e na Laudato Si, quis eu insistir na alegria. Inácio, nos Exercícios, faz-nos contemplar os seus amigos no “ofício de consolar”, como próprio de Cristo Ressuscitado (EE 224). É ofício próprio da Companhia consolar o povo fiel e ajudar com o discernimento para que o inimigo da natureza humana não nos roube a alegria: a alegria de evangelizar, a alegria da família, a alegria da Igreja, a alegria da criação… Não a roube de nós, nem por desesperança diante da magnitude dos males do mundo e dos mal-entendidos entre os que querem fazer o bem, nem a substitua por alegrias fátuas, sempre ao alcance em qualquer comércio.

Esse “serviço da alegria e da consolação espiritual” está arraigado na oração. Consiste em nos animarmos e animar a todos a “pedirem insistentemente a consolação a Deus”. Inácio formula isso de modo negativo na 6ª regra da primeira semana, quando diz que “muito aproveita o intenso mudar-se contra a mesma desolação” insistindo na oração (EE 321). Aproveita porque “na desolação nos apequenamos” (EE 324). Praticar e ensinar essa oração de pedido e súplica da consolação é o principal serviço à alegria. Se alguém não se acha digno (coisa bem comum na prática), ao menos insista em pedir essa consolação por amor à mensagem, uma vez que a alegria é constitutiva da mensagem evangélica, e peça-a também por amor aos demais, à sua família e ao mundo. Boa notícia não se pode dar com cara triste. A alegria não é um plus decorativo, é um indicador claro da graça: mostra que o amor está ativo, operante, presente. Por isso, buscá-la não deve se confundir com buscar “um efeito especial”, que a nossa época sabe produzir para consumo, mas que se busca no seu caráter existencial que é a “durabilidade”: Inácio abre os olhos e desperta o discernimento dos espíritos ao descobrir essa distinta valência entre alegrias duradouras e alegrias passageiras (Autobiografia 8). O tempo será o que lhe dá a clave para reconhecer a ação do Espírito.

Nos Exercícios, o progresso na vida espiritual dá-se na consolação: é aquele “ir de bem a melhor subindo” e também em “todo aumento de fé, esperança e caridade e toda alegria interior” (EE 316). Esse serviço da alegria foi o que levou os primeiros companheiros a decidirem não dissolver, mas instituir a companhia na qual brindavam e partilhavam espontaneamente e cuja característica era a alegria que lhes trazia o rezar juntos, sair a missionar juntos e voltar a reunir-se, à imitação da vida que levavam o Senhor e seus apóstolos. Essa alegria do anúncio explícito do Evangelho ─ mediante a pregação da fé e a prática da justiça e a misericórdia — é o que leva a Companhia a sair a todas as periferias. O jesuíta é um servidor da alegria do evangelho, tanto quando trabalha artesanalmente, conversando e orientando exercícios espirituais a uma única pessoa, ajudando-a a encontrar o “lugar interior de onde lhe vem a força do Espírito que o guia, o liberta e o renova” como quando trabalha estruturalmente, organizando obras de formação, de misericórdia, de reflexão, que são expansão institucional desse ponto de inflexão em que se dá a quebra da própria vontade e entra em ação o Espírito. Bem dizia M. de Certau: os Exercícios são “o método apostólico por excelência”, por quanto possibilitam o “retorno ao coração, princípio de uma docilidade ao Espírito que desperta e impele o exercitante a uma fidelidade pessoal a Deus”.

“É ofício próprio da Companhia consolar o povo fiel e ajudar com o discernimento para que o inimigo da natureza humana não nos roube a alegria: a alegria de evangelizar, a alegria da família, a alegria da Igreja, a alegria da criação… “

2) Deixarmo-nos comover pelo Senhor posto na cruz

É sempre possível dar um passo a mais em nos deixarmos comover pelo Senhor pregado na cruz, por Ele em pessoa, por Ele presente em tantos irmãos nossos que sofrem – a grande maioria da humanidade! O Pe. Arrupe dizia que ali onde há dor, ali está a Companhia.

O jubileu da misericórdia é um tempo oportuno para refletir sobre os serviços da misericórdia. Digo isso no plural, porque a misericórdia não é uma palavra abstrata, mas um estilo de vida que antepõe a palavra aos gestos concretos que tocam a carne do próximo e institucionalizam-se em obras de misericórdia. Para quem faz os Exercícios, essa graça pela qual Jesus nos manda que nos assemelhemos ao Pai (cf. Lc 6,36) começa com o colóquio de misericórdia, que é a expansão do colóquio com o Senhor crucificado por meus pecados. O segundo exercício inteiro é um colóquio cheio de sentimentos de vergonha, confusão, dor e lágrimas agradecidas, vendo quem sou eu – diminuindo-me – e quem é Deus ─ engrandecendo-o, “que me deu vida até hoje”, quem é Jesus, pendurado na cruz por mim (EE 61 e anteriores). O modo como Inácio vive e formula sua experiência da misericórdia é de grande proveito pessoal e apostólico e requer uma aguda e sustentada experiência de discernimento. Dizia nosso pai a Borja: “Eu, para mim, me persuado de que antes e depois só sou impedimento; e que disto sinto maior contentamento e gozo espiritual em nosso Senhor, por não poder atribuir a mim coisa alguma que boa pareça”. Inácio vive, pois, da pura misericórdia de Deus até nas coisas mais insignificantes de sua vida e pessoa. E sentia que, quanto mais impedimentos ele colocava, com mais bondade o Senhor o tratava: “Tanta era misericórdia do Senhor e tanta a abundância de suavidade e doçura da sua graça com ele mesmo, que tudo o que ele mais desejava era ser desse modo castigado, tanto mais bondoso era Deus e com maior abundância derramava sobre ele os tesouros de sua infinita liberalidade. Onde dizia que ele acreditava não haver no mundo homem em que tão presentes essas duas coisas juntas concorressem como nele; a primeira, faltar tanto a Deus, e a segunda, ele receber tantas e assim contínuas graças da sua mão”.  Ao formular Inácio a sua experiência da misericórdia nesses termos comparativos – quanto mais sentia ele faltar em relação ao Senhor, mais Ele ampliava a doação da sua graça – libera a força vivificante da misericórdia que nós, muitas vezes, diluímos com formulações abstratas e condições legalistas. O Senhor que nos olha com misericórdia e nos escolhe, nos envia a fazermos chegar, com toda a sua eficácia, essa mesma misericórdia aos mais pobres, aos pecadores, aos sobrantes e crucificados do mundo atual que sofrem a injustiça e a violência. Somente experimentando essa força saneadora no vivo de nossas próprias chagas, como pessoas e como corpo, perderemos o medo de nos deixarmos comover pela imensidão do sofrimento de nossos irmãos e nos lançaremos a caminhar pacientemente com nossa gente, aprendendo dela o modo de melhor ajudá-la e servi-la (Cf. CG 32, d 4, n.50).

3) Fazer o bem com bom espírito, sentindo com a Igreja

É sempre possível dar um passo à frente no fazer o bem, com bom espírito, sentindo com a Igreja, como diz Inácio. É também próprio da Companhia o serviço do discernimento do modo como fazemos as coisas. Fabro formulava isso pedindo a graça de que “todo o bem que pudesse realizar, pensar ou organizar fosse feito pelo bom espírito e não pelo mau”14. Essa graça de discernir, que não basta com pensar, fazer ou organizar o bem, mas que deve ser feito mediante o bom espírito, é o que nos enxerta na Igreja, onde o Espírito age e reparte sua diversidade de carismas para o bem comum. Fabro dizia que, em muitas coisas, aqueles que queriam reformar a Igreja tinham razão, mas que não queria corrigi-la do jeito deles.

É próprio da Companhia fazer as coisas sentindo com a Igreja. Fazer isso sem perder a paz e com alegria, dados os pecados que vemos, tanto em nós como pessoas, como nas estruturas que criamos, implica carregar a Cruz, experimentar a pobreza e as humilhações, âmbito no qual Inácio nos anima a eleger entre suportá-las pacientemente ou desejá-las 15. Ali onde a contradição era mais candente, Inácio dava exemplo de recolher-se em si mesmo antes de falar ou agir, para fazê-lo segundo o bom espírito. As regras para sentir com a Igreja não as lemos como instruções precisas sobre pontos controversos (algum poderia resultar extemporâneo), mas exemplos nos quais Inácio convidava em seu tempo a “agir contra” o espírito antieclesial, inclinando-se total e decididamente para o lado da nossa Mãe Igreja, não para justificar uma posição discutível, mas para abrir lugar, a seu tempo, à atuação do Espírito.

O serviço do bom espírito e do discernimento torna-nos homens da Igreja – não clericalistas, mas eclesiais ─ homens “para os demais”, sem nada próprio que isole, mas com todo o nosso ser posto em comunhão e a serviço.

Não caminhamos nem sós nem confortáveis, caminhamos com “um coração que não se acomoda, não se fecha em si mesmo, mas que bate ao ritmo de quem caminha junto com todo o povo fiel de Deus”16. Caminhamos fazendo-nos todo a todos com tal de ajudar a alguns.

Esse despojamento que faz com que a Companhia tenha e possa ter, sempre mais, o rosto, o sotaque e o modo de todos os povos, de cada cultura, penetrando em todos eles, para fazer igreja com cada um, inculturando o evangelho e evangelizando cada cultura.

Pedimos a Nossa Senhora da Estrada, em colóquio filial ou como escravo com sua Senhora, que interceda por nós diante do “Pai das misericórdias e Deus de toda consolação” (2 C 1,3) para que nos ponha sempre novamente com seu Filho, com Jesus, que carrega a Cruz do mundo e nos convida a carregá-la com Ele. A ela confiamos nosso “modo de proceder”, para que seja eclesial, inculturado, pobre, serviçal, livre de toda ambição mundana. Pedimos a nossa Mãe que encaminhe e acompanhe cada jesuíta, junto com a porção do povo fiel de Deus a que foi enviado, por esses caminhos da consolação, da compaixão e do discernimento.

É ofício próprio da Companhia consolar o povo fiel e ajudar com o discernimento para que o inimigo da natureza humana não nos roube a alegria: a alegria de evangelizar, a alegria da família, a alegria da Igreja, a alegria da criação… Não a roube de nós, nem por desesperança diante da magnitude dos males do mundo e dos mal-entendidos entre os que querem fazer o bem, nem a substitua por alegrias fátuas, sempre ao alcance em qualquer comércio.

 

Tradução: Pe. José Luis Fuentes Rodriguez