A proposta positiva de padre Pedro Arrupe

Evento no CEPAT debateu as obras e o legado do jesuíta

“Padre Pedro Arrupe foi alguém profundamente ligado a Deus e apaixonado pelos homens”, afirmou o padre jesuíta João Quirino Weber, para um grupo de pessoas atentas, que participavam de mais uma edição do encontro Rezar com os Místicos, realizado no dia 16 de maio, pelo Centro Jesuíta de Cidadania e Ação Social (CJCIAS/CEPAT).

No encontro, mais que falar das obras do padre Pedro Arrupe, entendidas como o resultado de sua vivência do Evangelho, padre Quirino Weber ressaltou a ‘fonte viva’ da qual esse grande jesuíta, que foi o 28º Prepósito Geral da Companhia de Jesus (1965-1983), retirou força e coragem para buscar o caminho mais cristão: servir a fé e promover a justiça.

Padre Quirino, um jesuíta já calejado pelos anos de serviço ao Reino de Deus, em seus 83 anos, demonstrou um vigor que impressionou a todos. Ao falar de Pedro Arrupe, não falou sobre alguém distante, no estilo daqueles pesquisadores que estudam com afinco a biografia de alguém e depois fazem um belo discurso, mas, sim, falou sobre o que aprendeu do próprio convívio com Arrupe, quando em missão no Japão. E assim, mais do que alimentar os rótulos e classificações que na tradição historiográfica e sociológica é comum e, às vezes, necessário fazer: progressista versus conservador, esquerdista versus direitista, experiência eclesial libertadora versus experiência triunfalista, padre Quirino preferiu destacar o que se pode chamar de “proposta positiva de Arrupe”.

Jesuíta universal

Arrupe foi um homem que procurou incessantemente guardar o depósito da fé, buscando rejuvenescer e ressignificar este dom Deus, que, como destacou padre Quirino, deve ser de acolhimento da dinâmica do próprio Deus que está em nós. Tal dinâmica, ao invés do medo de Deus e do próximo, provoca um movimento de abertura para o outro, daí a superação da ideia do místico como alguém afastado do convívio com as pessoas, ao contrário, o místico é pessoa com as pessoas e sua oração se dá com as pessoas e por causa das pessoas. Foi esta compreensão, elevada a um alto grau, que fez de Arrupe um jesuíta, como bem salientado pelo padre Quirino, universal. Alguém antenado com as principais problemáticas enfrentadas pela sociedade contemporânea, que não se eximiu de levar adiante a proposta do Concílio Vaticano II. No posto de Prepósito Geral da Companhia de Jesus fez de sua autoridade um serviço aos mais pobres e, abnegadamente, trabalhou para que a semente do Reino de Deus crescesse, independente das adversidades e hostilidades que são próprias da caminhada daqueles que assumem este caminho.

Para o padre Quirino, Arrupe foi portador das três qualidades que o dom da fé proporciona àqueles que o aceitam: a fortaleza, que lhe deu a dignidade, a postura e a coerência nos momentos em que precisou enfrentar os ventos fortes das adversidades; a caridade, uma vez que a fé é inseparável do amor e, por sinal, ele radicalizou esse preceito; e o discernimento, que é fruto da tão necessária sabedoria, que marcou o seu modo de se manter fiel aos desígnios de Deus.

Sem cair no artifício do denuncismo, Arrupe foi um homem de propostas, que abriu caminhos de diálogo, de aproximação e de contato com os povos, em suas mais diversas manifestações culturais e religiosas. Preocupou-se em ajudar a Igreja, a quem tanto amou, a viver e ser a primeira testemunha da boa notícia da qual é portadora: o Evangelho de Jesus Cristo. Arrupe compreendeu muito bem que apontar o erro é mais fácil do que apontar saídas e alternativas. Sendo assim, foi além dos profetas das desgraças e das chagas sociais e eclesiais e, sem deixar de enxergá-las, trabalhou com perseverança abrindo novas fronteiras, propondo com docilidade, mas sem interrupção, um modo de viver a fé que não nega as consequências de tal proposta.

As palavras do padre Quirino a respeito de Pedro Arrupe contagiaram todos os participantes. Ao final do encontro, não foi preciso muito para perceber o entusiasmo de todos diante do testemunho de um irmão (Arrupe) próximo de Deus e, consequentemente, dos irmãos e irmãs que também, hoje, continuam interpelando a todos, principalmente a partir das grandes violações, das mais diferentes espécies, que sofrem no mundo contemporâneo.  A ousadia de Arrupe faz lembrar que a esperança cristã não pode morrer, mas, sim, deve ser atualizada no atual momento da história, independente da dificuldade humana em que se vive.

Adaptado de www.ihu.unisinos.br (Jonas Jorge da Silva/ CJCIAS/CEPAT de Curitiba).

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