Obra completa de Vieira é lançada em Portugal

Publicação é formada por 30 volumes e possui cerca de 20 mil páginas

O padre Antonio Vieira é uma das figuras mais importantes da literatura em português. Agora, é nesse idioma que o legado do jesuíta está disponível aos leitores. A obra, composta por 30 volumes e cerca de 20 mil páginas, foi lançada oficialmente em Lisboa, Portugal, pela editora Círculo de Letras, no dia 7 de dezembro. No Brasil, a obra foi publicada por Edições Loyola, em agosto desse ano.

Referência da história luso-brasileira, Vieira, que nasceu em Portugal e morreu no Brasil, é um dos grandes nomes da língua portuguesa, assim como Luiz Vaz de Camões, Fernando Pessoa e José Saramago. “Mais que um indivíduo, padre Vieira é uma multiplicidade de heterônimos em carne e osso”, definiu José Viriato Soromenho-Marques, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, instituição que liderou o projeto de pesquisa e publicação da obra de Vieira.

O projeto, um esforço conjunto de 52 pesquisadores portugueses e brasileiros, é, segundo a editora, um dos mais ambiciosos da história literária portuguesa. “Ninguém antes de Vieira e nem depois dele, fez tanto com as palavras e pelas palavras. Sem Vieira, não teríamos a língua que temos”, escreveu Antonio Sampaio da Novoa, ex-diretor da Universidade de Lisboa, em comemoração ao lançamento da obra.

Missionário

Vieira nasceu em Lisboa em 6 de fevereiro de 1608 e viveu como missionário, diplomata e orador, entre Portugal e Brasil, onde foi educado e iniciou sua vida como religioso, ingressando na Companhia de Jesus, a grande responsável por levar o cristianismo às colônias ultramarinas portuguesas.

O jesuíta foi um transgressor em sua época, defendeu os direitos e condenou a escravidão dos indígenas, com quem conviveu e aprendeu o tupi. O padre também apoiou os judeus, ao advogar pela abolição da distinção entre cristãos velhos e cristãos novos, estes últimos judeus rendidos ao cristianismo perseguidos pela Inquisição.

No Brasil, onde Vieira é conhecido também como “Paiaçu” (pai grande, em tupi), teve uma influência significativa no Barroco brasileiro e foi um dos mais importantes críticos do colonialismo.

“Vieira teve um papel fundamental na criação do conceito de condição humana, com sua visão universalista do homem”, diz José Viriato Soromenho-Marques. Por essas ideias, o jesuíta foi acusado de heresia pela Inquisição.

Vieira também foi censurado por ser ferrenho defensor da profecia do sebastianismo, segundo a qual o rei Sebastião I de Portugal, morto aos 24 anos na Batalha de Alcácer-Quibir em 1578, voltaria para restabelecer o império português, na época sob o domínio da Espanha.

Seu livro História do Futuro, considerado um dos mais importantes relacionados ao sebastianismo, reaviva o mito do Quinto Império, utopia na qual Portugal lideraria o domínio mundial do cristianismo, sucedendo os quatro impérios anteriores da Antiguidade: assírio, persa, grego e romano.

Filósofo, missionário, diplomata, réu da Inquisição e aventureiro, Vieira morreu em Salvador, na Bahia, em julho de 1697. “Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso Deus nos deu tão pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer, Portugal, para morrer, o mundo”, escreveu o jesuíta em seu Sermão de Santo Antonio.

Fonte: veja.abril.com.br