Viagem do papa Francisco à Albânia

Visita ao país tem significado simbólico para o mundo

No dia 21 de setembro, o papa Francisco realizou uma viagem à Albânia, país no sudeste europeu, no qual a população segue diferentes religiões. Muçulmanos, católicos e ortodoxos convivem pacificamente nos dias de hoje. A conquista da paz demorou anos para se consolidar e hoje é uma realidade no país. A viagem de Francisco tem um grande significado simbólico, pois apresenta ao mundo que o diálogo inter-religioso é possível.

Confira abaixo o artigo de Claudio Ferlan, pesquisador do FBK-ISIG, publicado no Mente Politica.

Um jesuíta na periferia. A viagem de Francisco à Albânia.

O domingo passado pelo papa Francisco na Albânia pode contar muitas coisas sobre as raízes históricas e as linhas características do pontificado em curso. Desde os momentos subsequentes à própria eleição, Bergoglio desejou estar na condução de uma Igreja pobre para os pobres, capaz de abrir-se à periferia. Suas atenções, seus gestos e suas palavras se direcionaram depois, com particular insistência, à Igreja do diálogo inter-religioso, da paz e do martírio: de fato, com frequência Francisco recordou o modo como hoje o número de pessoas que perdem a vida pela própria fé seja superior ao registrado pelo cristianismo das origens.

Missão e testemunho

A presença dos jesuítas na Albânia começou a consolidar-se na metade do século XIX, quando os missionários tentaram revitalizar uma desaparecida minoria cristã. Conseguiram organizar uma pequena escola, mas o empenho se concentrava, principalmente, nas missões volantes destinadas a aldeias mais isoladas. Nesses locais, os missionários administravam os sacramentos para os poucos fiéis: matrimônios (a legalizar a difundida prática do concubinato), confissões e comunhões. O esforço dos jesuítas mirava, principalmente, superar a mentalidade da “lei do sangue”, a qual aceitava a vingança privada e a represália dos ofendidos contra os parentes de quem fora atingido por ultrajes ou delitos.

No segundo pós-guerra foi precisamente na Albânia que a Companhia de Jesus e a Igreja católica, em geral, vivenciaram as maiores dificuldades. Aqui, à proclamação do ateísmo de estado seguiu-se a dispersão, o encarceramento e a condenação a trabalhos forçados dos poucos religiosos que permaneceram no país. Não foram poucos os que perderam a vida, como o recordam as fotos expostas domingo passado na alameda principal da capital Tirana.

Nova linfa das periferias

A atenção às periferias se concretiza na escolha das metas das viagens pontifícias. Um dos mestres espirituais de Bergoglio, padre Pedro Arrupe (1907-1991) fez da periferia o seu mundo. Nos vinte e sete anos passados no Japão, Arrupe compreendeu que os jesuítas deviam deixar-se evangelizar pelas periferias, redimensionar o centralismo romano e ir ao encontro das exigências emergentes nos lugares mais pobres e marginalizados. Eleito superior geral da Companhia de Jesus em 1965, em pleno Concílio Vaticano II, Arrupe escolheu como meta das primeiras viagens pastorais a Índia e a África.

De semelhantes realidades teriam podido chegar os exemplos necessários à renovação da Igreja. Um destes exemplos foi proclamado em alta voz pelo papa Francisco que do povo albanês elogiou a capacidade de viver não em tolerância, mas em fraternidade. Num país no qual a maioria islâmica (cerca de 60% da população) e as minorias, ortodoxa (cerca de 20%) e católica (Entre 12% e 15%), colaboram em espírito de fraternidade e merecem ser tomada como modelo, disse o papa. Ao denunciar com força o sacrilégio dos homicídios em nome de Deus, recordou como nos anos da ditadura de Hoxha (1944-1985) os mártires pela fé não tenham sido somente católicos, mas também muçulmanos e ortodoxos: no compartilhamento das memórias sofridas, os religiosos podem, portanto, encontrar linfa para a convivência fraterna.

Encontro com os pobres

O The Guardian, como diversos outros jornais do mundo, pôs em evidência o alcance simbólico da viagem de Francisco, que escolheu como meta da primeira viagem europeia não “uma das grandes potências católicas do continente”, mas um país “minúsculo” e fortemente golpeado pelo problema da indigência: A Albânia. Tal preferência estaria indicando a vontade do papado de “dar prioridade aos pobres e aos marginalizados”. Nos discursos feitos no dia 21 de setembro, tal prioridade por certo não foi esquecida: Bergoglio recordou a urgência de fazer frente às necessidades dos pobres, e auspiciou que à globalização dos mercados corresponda uma globalização da solidariedade, convidou a escolher o bem que, ao contrário de um dinheiro que desilude, infinitamente apaga.

Parece poder dizer-se que as linhas programáticas deste pontificado tenham encontrado o favor do povo, e não só da maioria dos católicos, mas também daquela dos expoentes de outras religiões (muitos são, por exemplo, os muçulmanos albaneses que declararam publicamente rezarem pelo Chefe da Igreja católica), ou de quem em nenhuma fé se reconhece. É muito provável que tal apreciação deva ser coligada com a carga humana e carismática de Francisco, mas seria injusto não dar relevância também ao seu projeto de Igreja, um trabalho em curso que encontra as suas raízes na história e se abre a um futuro de renovação para o qual muitos esperam passos novos e, porque não, surpreendentes.

 

Fonte: www.ihu.unisinos.br | Foto: Rádio Vaticano e L’Osservatore Romano