Os desafios da inclusão

Personalizar o atendimento aos alunos especiais e qualificar os colaboradores das instituições são alguns dos cuidados necessários

Na foto, a professora Jéssica Fernanda e o aluno Ignácio José.

Em 2013, o Censo Escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), registrou mais de 560 mil matrículas de alunos com deficiência no Ensino Fundamental e Médio, isso só nas redes estaduais e municipais do Brasil. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que 95,1% das crianças de 6 a 14 anos de idade com deficiência frequentam a escola no Brasil. Estes dados mostram que, atualmente, há um número expressivo de estudantes com algum tipo de necessidade especial frequentando o ensino regular. Mesmo assim, o processo de inclusão ainda está em desenvolvimento no país, pois muitas escolas ainda estão se adaptando para proporcionar um ambiente adequado para estes alunos.

Apesar da Rede Jesuíta de Educação não adotar ainda uma política nacional sobre a inclusão de alunos com necessidades especiais, alguns de seus Colégios já aceitam estudantes com esse perfil. Segundo Sônia Magalhães, coordenadora Nacional da Rede Jesuíta de Educação e Doutora em Educação, este é um processo que começará a ser elaborado em 2014. “Com o processo de elaboração do projeto educativo comum, para o trabalho na área de educação básica em nível nacional, teremos uma referência e um posicionamento mais claro para a inclusão de alunos com deficiência nos Colégios”, afirma.

Personalizar o atendimento as esses alunos, qualificar os professores e colaboradores das instituições e adequar os processos de ensino, de acordo com as necessidades de cada estudante, são alguns dos desafios do processo de inclusão. “A personalização do atendimento é a chave para uma inclusão eficaz. E isto não se limita às crianças e aos jovens que identificamos como alunos ‘com necessidades especiais’. Na verdade, um bom processo educativo deveria considerar a singularidade de cada aluno”, ressalta Sônia.

A Constituição Federal no artigo 205 garante que a educação é um direito de todos e que visa o pleno desenvolvimento da pessoa. Ainda, segundo o portal do MEC (Ministério da Educação), a Resolução do CNE/CEB nº 2/2001, que define as diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica, as escolas de ensino regular devem matricular todos os alunos em suas classes comuns, mas com os apoios necessários.

A educação é um direito que todos devem usufruir, mas o respeito à diversidade deve acompanhar todo o processo de inclusão desses alunos nos ambientes escolares. E esta é uma etapa que deve ser pensada junto com a sociedade, a escola e os pais. “O primeiro trabalho a ser feito com os pais é informar claramente sobre as condições da escola e perguntar, junto com eles, se aquele colégio é o melhor lugar para o desenvolvimento do aluno. E, não são só as condições atuais, mas também a disposição e as possibilidades de adaptação e ajustes para atender o estudante. Este trabalho deve ser feito prévio à matrícula. Se bem é certo que a lei determina que a escola aceite, sem discriminação, todos os alunos que nos procuram, também é certo que existe um espaço de diálogo e reflexão sobre as necessidades do estudante e as condições ou características da escola”, salienta Sônia.

Incluir e integrar

“Incluir exige mais que ceder ao discurso do mau marketing já consagrado. Incluir precisa implicar no cuidado com cada pessoa e com todas as pessoas”

O trecho acima foi retirado do documento sobre inclusão do Colégio Medianeira, de Curitiba (PR), instituição que possui alunos portadores de necessidades especiais e que trabalha em parceria com tutores, que auxiliam no processo de aprendizado dos estudantes. “O auxílio de um tutor para o aluno é fundamental, já que é preciso um acompanhamento diário e constante para que ele realize as atividades e compreenda o que foi pedido pela professora”, afirma Bárbara Maria Remonato (foto), professora do 2º ano do Ensino Fundamental.

Bárbara, que dá aulas para alunos com síndrome de down, explica que o processo de aprendizado desses alunos é mais lento e, por isso, é necessário, em alguns momentos, a utilização de outras ferramentas para facilitar a assimilação dos conteúdos ensinados em sala de aula. “Ele aprende e entende melhor os conceitos com estímulos visuais e concretos”, ressalta.

Além do programa pedagógico, o cuidado das escolas com os alunos, o acolhimento dos professores e dos colegas são alguns dos diferenciais que auxiliam no pleno desenvolvimento da criança ou do adolescente. “O Pedro está se desenvolvendo muito bem, dentro das suas possibilidades. Olho sua trajetória na escola e percebo que o tempo todo há o cuidado de ajudá-lo a melhorar na questão motora, na autonomia, na convivência com os amigos e na questão acadêmica. Gosto da filosofia, dos princípios e do trabalho proposto pelo Colégio. Com o passar do tempo, fomos entendendo o que é um colégio jesuíta”, diz Silvia Maria Barbosa Andri, mãe de Pedro Henrique, 10 anos, aluno do 3º ano do Ensino Fundamental.

Pedro Henrique (foto) possui deficiência motora, cognitiva, e déficit de atenção. Ele estuda no Colégio Medianeira desde o Jardim II e, segundo a mãe, o acolhimento e o ambiente familiar, proporcionados pela instituição, auxiliam no processo de aprendizado do estudante. Para Michele Schley Dulski (foto), professora de Pedro, o convívio de alunos com necessidades especiais em ambiente de ensino regular é muito importante para o fortalecimento de valores como respeito ao próximo e solidariedade. “Vejo atos de amor e de solidariedade todos os dias e isso é belo! O relacionamento desses alunos com os demais é muito positivo”, explica Michele, professora do 3º ano do Ensino Fundamental.

“Os valores de respeito às diferenças estão presentes em todas as ações, dentro e fora da sala de aula. Escolhemos o Medianeira pelos valores trabalhados e defendidos pela metodologia utilizada na instituição. Aqui somos bem acolhidos!”, afirma Dinara Maria Zanon, mãe de Ignácio José Zanon Chueh (foto), de 5 anos, aluno do Jardim II.

O incentivo da família, as novas descobertas e o estímulo dos professores devem ser um processo constante. Pois aliando respeito, atenção e aprendizagem, o aluno aprende a se relacionar e partilhar o conhecimento.  “O Ignácio possui um ótimo relacionamento com todos que o cercam. O seu aprendizado é um pouco mais lento, por isso devemos recheá-lo de estímulos e vivências exploratórias. Essa prática vinculada à aprendizagem beneficia a percepção do todo e traz mais significado as suas conquistas”, conclui Jéssica Fernanda Franco Oliveira Perusso (foto), professora do Jardim II.

Fotos: Colégio Medianeira/Paulinha Kozlowski