O Papa é nosso

Artigo do Pe. Luís González-Quevedo

Sim, o Papa Francisco é nosso, porque é jesuíta, latino-americano, e gosta de ajudar os jovens a discernir a sua vocação. O Papa é nosso, porque é de todos. Ele deseja uma Igreja pobre e para os pobres.

No ano 1970, fui a Buenos Aires. Uma dessas viagens que a gente não esquece mais: “Quando eu era jovem…”. Em Montevideu perdi um ônibus. Na travessia do Mar de la Plata, conheci um jovem haitiano, que viajava para esquecer um antigo amor: “Um só ser vos falta e o mundo está despovoado”.

Cheguei a Buenos Aires, atrasado. No cais do porto, encontrei um companheiro jesuíta. Tinha saído seis vezes à minha procura. Isso se chama amizade!

Uma noite, em San Miguel, na grande Buenos Aires, fiquei conversando com um padre jovem, muito atencioso. Chamava-se Jorge Mario Bergoglio. Falamos de tudo, da família, da vocação, do nosso futuro. Ele me disse que ia ser Mestre de Noviços. Antes, iria à Espanha, para terminar a formação jesuítica. Eu lhe dei o endereço de minha família em Madri. E assim ficamos amigos.

De 1970 a 1992, encontrei Jorge cinco ou seis vezes, não mais. Uma vez, no aeroporto de Buenos Aires, ele conseguiu entrar na sala dos passageiros em trânsito, só para me cumprimentar.

O Pe. Bergoglio era já uma pessoa muito ocupada, mas tinha tempo para os amigos. Das cartas que me escreveu, só conservo uma. Como podia eu imaginar que chegaria a ser papa?!

Eu tinha escrito para ele antes do Natal de 1983. A carta chegou às suas mãos no dia 3 de janeiro. No mesmo dia, ele me respondeu: “Tua carta me trouxe muita alegria. Apresso-me em respondê-la”.

Na carta me contava que tinha estado em Roma e que, na volta, passou por Madri, fazendo escala no aeroporto: “Teria gostado de ficar uns dias, para visitar tua família…”.

A seguir, Jorge falava de seu trabalho como Reitor de estudantes de Filosofia e Teologia e de Irmãos jesuítas em formação. Era também Presidente das Faculdades. E lecionava algumas disciplinas: “Como vês, nem tempo me deixam para passear…”

Mas ele gostava muito do seu trabalho: Enche-me de alegria e satisfação ver o progresso espiritual dos jovens. Esta última frase retrata, de corpo inteiro, o Jorge Bergoglio que eu conheci e que hoje, conhecemos como Papa Francisco.

Francisco é um homem que gosta do encontro pessoal, de cultivar a amizade e de ajudar as pessoas a crescerem na fé. Penso o que ele diria a um(a) jovem que estivesse discernindo a sua vocação: “Seja livre, seja generoso(a), seja perseverante!”

Todo ano, no dia 23 de março, Bergoglio felicitava o aniversário do Ir. Mário Rausch, encadernador de San Miguel. Este ano, dez dias após a sua eleição como papa, Francisco ligou por telefone à Argentina, para desejar ao Irmão um “Feliz aniversário!”

Agora, os amigos não sabem como devem tratar o Papa. O Ir. Mário Rausch continua chamando-o de “Jorge”, como sempre fez, como se faz com um amigo.

Que Deus conserve o nosso Papa tão simples, tão amigo, tão humano, tão “nosso”, para o bem de tantas pessoas que buscam, na Igreja, a ternura de Deus e a esperança da vida eterna.

Pe. Luís González-Quevedo