Artigo: “Francisco, um Papa chamado Jorge”

Portenha escreve sobre sua convivência com o Papa Francisco

 

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Papa Francisco andando de metrô em Buenos Aires
 
Nora Beatriz Kviatovoski, que é mestra de Noviças da Comunidade Jesus-Maria, em Buenos Aires, escreveu o artigo abaixo sobre sua convivência com o arcebispo da capital argentina, agora Papa Francisco.
 
Pediram-me que, como argentina, partilha-se meu testemunho sobre o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco. Não vou falar dele como jesuíta, porque creio que isso corresponde aos jesuítas argentinos que viveram e compartilharam com ele. Só quero partilhar do que vivi quando eu era membro da Arquidiocese de Buenos Aires.
 
Quero começar dizendo que para todos os que tivemos a oportunidade de conhecê-lo, ele é apenas Jorge. Assim se apresentava quando cumprimentava. Lembro-me de um dia em que precisou assinar um pedido à Adveniat, ligou para a minha casa pra pedir-me uns dados… Soou o telefone e ele disse: ‘Aqui fala Jorge’. Claro que lhe perguntei: ‘Qual Jorge?’ ‘Jorge Bergloglio’, respondeu. Não era seu costume apresentar-se com títulos de doutor, padres, monsenhor, excelência, etc. Simplesmente Jorge.
 
Intuo que a simplicidade ele a herdou da família de imigrantes italianos na qual nasceu há 76 anos num dos cem bairros portenhos: Vila Devoto.
 
Quando penso nele como arcebispo de Buenos Aires, ocorrem-me muitas imagens nas quais o vejo sempre no meio do povo. Nunca o vi com segurança pessoal e tampouco com motoristas. Em geral ele se movia em transporte público, tanto para visitar sua família como para realizar uma visita pastoral, ou simplesmente substituir um sacerdote em algumas das eucaristias dominicais. Ele chegava assim, algumas vezes no meio da lama ou do pó da terra, cumprimentando as senhoras com um beijo… conversando sobre futebol com as crianças e os jovens.
 
Lembro-me, particularmente, da noite crítica de 19 de dezembro de 2011, quando o povo argentino saiu à rua para manifestar nossa indignação pela gestão do ex-presidente De la Rúa e nos concentramos em frente à Plaza de Mayo. Bergoglio também estava lá, como um cidadão a mais. Também me lembro dele acompanhando e consolando, no Bairro de Once, os familiares de centenas de jovens que faleceram no acidente da danceteria de Cromañon, e recentemente, com as famílias do acidente fatal de trens. Tenho imagens dele escutando as mães das vítimas da droga e da violência.
 
Alguns amigos que são sacerdotes do clero de Buenos Aires me comentaram que cada vez que precisavam falar com ele, imediatamente lhes abria espaço na agenda e dedicava tempo para escutá-los. E assim se geravam oportunidades de descanso, oferecendo-se ele mesmo para substitui-los na eucaristia que fosse necessário. Nos últimos anos, Bergoglio impulsionou o compromisso dos sacerdotes jovens com a pastoral urbana, em especial nas favelas e bairros populares.
 
As pessoas mais próximas sempre o destacaram como um homem de grande austeridade e simplicidade de vida. Também posso dizer que deixou transparecer uma grande sensibilidade espiritual, identificando-se assim com o povo simples. Pessoalmente ele promoveu e fomentou as diversas manifestações de devoção popular. Cada ano ele estava no meio das multitudinárias Peregrinações Juvenis ao Santuário de Nossa Senhora de Luján. Todo dia 7 de agosto ele acompanhava os milhares de peregrinos ao Santuário de São Caetano, rezando e pedindo por pão e trabalho. Ano após ano, no estádio do Boca Juniors, Bergoglio impulsionou a realização e presidiu a eucaristia para as crianças. Não se cansava de convidar os católicos a serem missionários e a sairmos às ruas para anunciar a mensagem de Jesus.
 
Eu o vi próximo de rabinos e pastores de igrejas cristãs, com os quais frequentemente se reunia para partilhar, conversar e gerar espaços comuns de orações e de ações concretas em favor dos mais desfavorecidos. Seu recato e timidez não eram obstáculo para mostrar-se atento e próximo ao povo, em especial aos mais pobres.
 
Na verdade, ele era muito pouco amigo de entrevistas a jornalistas, e não me lembro de muitas conferências de imprensa.
 
Falava pouco, mas muito claro e direto. Suas homilias e cartas estavam sempre baseadas no Evangelho e com uma clara opção pelos mais pobres. Nunca tremeu sua voz para clamar contra a desigualdade no país. Bergloglio comparou pobreza como violação dos direitos humanos e não duvidou em recriminar diretamente os diversos governos por não impedirem o aumento da pobreza, situação que considera ‘imoral, injusta e ilegítima’, por acontecer numa nação que possui as condições econômicas necessárias para evitar estes males.
 
Para concluir sobre o Arcebispo de Buenos Aires, posso dizer que ele tem sido, antes de tudo, um ‘pastor’ que pôs a arquidiocese portenha em ‘estado de missão’ e exortou os argentinos a não ficarmos fechados nas sacristias, mas sair ao encontro dos mais necessitados, tanto material, como espiritualmente. Indubitavelmente o que mais valorizo são seus gestos populares, próximos e humanos, como aconteceu na sua apresentação como Papa, ao pedir ao povo que reze para Deus abençoá-lo, antes de ele mesmo dar a sua bênção a todas as nações.
 
Nora Beatriz Kviatovoski
Mestra de Noviças da Comunidade Jesus-Maria