Noviços relatam experiência de inserção apostólica

Eles precisaram a importância da fé na vida das pessoas, durante incêndio na comunidade Artur Bernardes

Os dois noviços descrevem as experiências vividas durante o período que passaram na casa da Equipe Itinerante*, em Manaus (AM). O incêndio aconteceu no dia 27 de novembro e atingiu diversas famílias.

 

Ao chegarmos à comunidade Artur Bernardes, não podemos negar que sofremos um grande impacto, diante da cena com que nos deparamos ao contemplar a realidade dos moradores: o aglomerado de pessoas instaladas em palafitas; o igarapé que passa por baixo das casas, que se encontrava seco, mas com uma grande quantidade de lixo vindo de diversos lugares; a dificuldade de locomoção em meio a fiação elétrica inadequada; o odor muito forte pela falta de saneamento básico; as pontes de madeira que deixam espaços podendo causar acidentes em crianças e adultos etc.

Por outro lado, em meio a trevas, podemos nos alegrar com um povo pobre, mas batalhador diante da luta do dia a dia, a felicidade de encontrar crianças que brincavam na varanda das nossas casas, as conversas diárias com os vizinhos e a solidariedade entre as famílias.

Ainda no primeiro dia, tivemos a presença do Irmão Arquelino, sj, com os vocacionados que vieram visitar o local e conhecer a equipe Itinerante, formada pela irmã Arizete e a irmã Graça, esta última partilhou sua vivência com os mesmos e sua inserção na comunidade.

Um dia antes do acontecido, a irmã Graça celebrou o seu quinquagésimo aniversário, quando tivemos um dia muito especial, no almoço fizemos um tambaqui assado, e no fim do dia, uma celebração eucarística na casa da equipe, presidida pelo Pe. Adelson e com a presença do Pe. Sandoval. Em seguida juntamente com as crianças cantamos os parabéns com um belo bolo trazido pelo Pe. Anselmo. Foi um momento muito feliz sem saber o que nos esperava no outro dia.

Na manhã do dia seguinte, por volta das 8h30m, ao retornarmos da celebração eucarística da residência Luiz Figueira, avistamos que uma das casas estava pegando fogo, no mesmo instante a comunidade estava mobilizada pela rádio local, que pedia a colaboração de todos os moradores para apagar o fogo, pois o mesmo estava muito forte e a situação das casas de madeira fez com que o fogo se alastrasse muito rapidamente atingindo várias moradias.

Nesse momento foi que percebemos o desespero das pessoas para retirar seus pertences, e no mesmo instante começamos a ajudá-las a recolher tudo que podíamos (som, televisão, geladeira, sofá…) transportando assim para o outro lado do igarapé que passa ao lado da comunidade.

Em meio a tudo isso, o que ficou muito forte foi a expressão de cada pessoa: choro, gritos, sofrimento, tristeza… Mas no meio de tanta dor, o ser humano também se solidariza com seu semelhante, desde um pequeno gesto de ajudar a carregar uma panela até a arriscar a própria vida pela do outro. Uma união tanto das pessoas que estavam a perder tudo, como também de outras de fora, que lutaram para ajudar as famílias, cujas casas estavam sendo destruídas pelo fogo.

No dia posterior com a luz do sol a iluminar todo o cenário de destruição, ficava um impressionante vazio, no lugar onde se encontravam as centenas de casas que resguardavam a vida de cada família que foi desabrigada, tendo que dormir em ginásios, igrejas e em casas de parentes.

Todavia em meio a dispersão, a comunhão continuava, por meio da Cáritas, da Associação da comunidade e da Equipe Itinerante que lutaram pelos direitos dos oradores, conseguindo atingir o governo para ajudá-los a reconstruir suas “vidas” com o aluguel social e uma ajuda de custo. Também da sociedade houve uma sensibilização, doando roupas, colchões, água, comida etc.

Com o passar desses dias aqui nessa comunidade Artur Bernardes, resta-nos somente agradecer ao bom Deus da Vida e a todas as pessoas que contribuíram para essa grande experiência tão importante em nossas vidas, percebendo assim a presença da Divindade que agiu no escondido e presente em todas as coisas, de modo especial e particular no povo, que não deixou de lutar pelos seus sonhos, pois onde há vida, há esperança.

Arthur Carvalho e Luzimar Dias

 

*A Equipe Itinerante é composta de jesuítas, leigos e religiosos de várias congregações.