A importância do voto consciente para o exercício da cidadania


Artigo do Padre João Batista Libanio, sj, expõe a importância do voto consciente para o exercício da cidadania, assim como o papel do jovem na política. O artigo ganhou destaque no jornal DCI (Diário Comércio Indústria e Serviços). Confira abaixo na íntegra:

 

Precisamos ajudar os jovens a exercer o voto consciente

João Batista Libanio*

As denúncias de corrupção e de mau uso dos cargos públicos, envolvendo parlamentares e chefes do executivo, fundamentadas ou não, têm contribuído ao longo dos anos não só para desmoralizar a vida política, mas, principalmente, para incutir no jovem o descrédito, a desesperança. Nesse cenário a educação exerce papel fundamental como único caminho para a conscientização política, com pais e educadores à frente dessa missão. Cabe a eles desenvolver no jovem um pensamento crítico e levá-los a ter atitudes transformadoras em face da realidade. O desenvolvimento da consciência política é processo longo, delicado e difícil. Como tal, precisa começar cedo.  

A experiência humana conhece o rito da iniciação em muitos campos: na religião, na vida afetiva, sexual e profissional, apenas para citar os principais.  A política, também, tem rito de iniciação peculiar, pois está entre as atividades humanas mais nobres. Na clássica formulação de Aristóteles, o ser humano é um “animal (racional) político”.  Tudo o que faz, fora da intimidade, tem alcance político, de relevância naturalmente diversa.

Votar é ato eminentemente político e que para ser exercido com plenitude deve ser ato consciente. Para tanto, precisa ser antecedido (como parte da iniciação política) da troca de ideias e discussões sobre o tema, no sentido nobre e amplo da palavra, que levem ao entendimento de como a sociedade está organizada, tendo em vista o bem comum ou interesses de grupos. Para votar com consciência é necessário obedecer a alguns critérios, como procurar candidatos que respondam aos nossos anseios; examinar suas práticas, buscar informações junto a pessoas criteriosas e idôneas, sondar as alianças que faz e os poderes que o sustentam.

 Pesquisar a vida pregressa dos políticos demanda tempo, habilidade e discernimento. Nem todos se dispõem a enfrentar tal empreitada, até mesmo por completo descrédito. Mas quem persiste, consegue reunir dados e decide lançar sua pesquisa, sua opinião nas redes sociais, presta enorme serviço de utilidade pública, ajudando aqueles que não saíram a campo para refletir e decidir. Cada um analisa e escolhe seu candidato segundo a própria escala de valores.  

Para exercer o voto consciente, não podemos esquecer também que vivemos na sociedade capitalista neoliberal, sustentada por três pilares: mercado, lucro e capital. Nesse universo, convivem políticos de várias gamas espirituais, desde extremamente virtuosos e dedicados até salafrários federais, que usam o poder para benefício próprio ou de seu grupo, embora eleitos pelo povo. Portanto, é importante saber como ele age na política; se suas filiações partidárias são coerentes com os princípios que diz defender. Nessa busca pelo voto consciente o jovem irá se deparar com situações vergonhosas, mas com certeza encontrará opções dignas, que farão a diferença no futuro.

Agora, se me perguntarem se uma das soluções para os indecisos ou para os que não acreditam nos políticos é anular o voto, responderei, sem medo de errar, que esta é a pior opção. Ela significa empurrar a responsabilidade da decisão para os outros e, com isso, perder o direito à crítica, pois alguém será eleito, merecidamente ou não. 

 

*João Batista LibanioPadre Jesuíta, doutor em Teologia (Frankfurt e Roma), professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (BH/MG). É autor de mais de 70 livros, entre eles: “Olhando para o futuro”, “Jovens em tempo de pós-modernidade”, “Em busca de Lucidez”, “Para onde vai a juventude?”, “Introdução à vida intelectual”, entre outros.