30 anos depois: a memória revolucionária do sangue dos mártires da UCA

Artigo de Pe. Geraldo Luiz De Mori*, reitor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)

Memorial aos jesuítas mortos e a Elba Ramos e sua filha, Celina, no campus da UCA  (NCR foto/Chris Herlinger)

Amanhã, 16 de novembro, fazemos memória do 30º aniversário do martírio dos jesuítas Ignacio Ellacuría, Ignacio Martín Baró, Segundo Montes, Amando López, Juan Ramón Moreno e Joaquín López, como também de Elba Ramos e sua filha, Celina, que trabalhavam na residência dos religiosos na Universidade Centro-Americana (UCA), em El Salvador, onde foram brutalmente assassinados. Muito já se escreveu sobre este acontecimento, que chocou a tantos, chamou a atenção para o papel da universidade no debate público, levantou uma série de protestos e inúmeras iniciativas de solidariedade e inspirou o compromisso profético na América Latina e em outras regiões. O que dizer ainda sobre este tema 30 anos depois? O que celebrar e por que celebrar?

Numa cultura da imagem, em que o que mais se prima são o momento presente, o gozo e o consumo, recordar a violência à qual foram submetidos os jesuítas da UCA e suas colaboradoras parece um contrassenso ou algo ultrapassado. Aquilo no qual eles acreditavam e pelo qual apostaram a vida, a saber, uma sociedade justa, na qual os pobres tivessem vida digna e fossem respeitados, parece não mais ter sentido. A utopia do Reino tampouco parece mobilizar o imaginário e o engajamento dos que lutam por sobreviver ou por ser incluídos num mundo em que o mercado dita suas regras. Por que sacrificar-se ou correr riscos se os poderosos sempre vencem e o mundo sempre foi assim?

Coincidentemente, o martírio da UCA aconteceu no mesmo ano da queda do muro de Berlim, que selou, segundo muitos, o fim da imaginação utópica e sua inspiração para o agir social e político de movimentos que lutavam por mais justiça e solidariedade. O mundo que emergiu desde então, globalizado, plural, fragmentado, centrado no presente, ignorando o passado e não se interessando pelo futuro, não se tornou, porém, melhor. Ao contrário, viu se acirrarem conflitos de todo tipo, fazendo crescer as ameaças à casa comum, produzindo homens e mulheres vulneráveis que, mesmo sem saber, continuam buscando dar sentido às suas existências, por meio de pequenos gestos que fazem irromper o novo.

Da adolescente Greta Thunberg ao professor Peter Tabichi, passando pelas inúmeras pessoas que, como as salvadorenhas Elba e Celina, em 1989, gastam suas vidas nas tarefas mais cotidianas, muitas delas se confundindo com a luta pela sobrevivência, é preciso acreditar que o novo pode surgir, que aqueles que caem por amor ao advento de uma sociedade mais justa e solidária merecem, sim, ser recordados, celebrados. Ai daqueles que esquecem seus mártires! O dever da memória, de uma “memória perigosa”, como a dos mártires da UCA, impõe-se, portanto, mesmo nesses tempos “líquidos”, aparentemente sem utopia e sem a “febre” da construção de “um outro mundo possível”.

Chama a atenção no martírio da UCA a preocupação dos assassinos em destruir os cérebros dos jesuítas. Esse ato chocante é muito simbólico. Ele mostra o quanto fazer pensar incomoda os donos do poder, qualquer que seja sua ideologia. Neste tempo de incertezas pelo qual passa a América Latina e, em particular, nosso País, recordar Ellacuría, seus companheiros e suas colaboradoras, é um ato importante, sobretudo para nós enquanto instituição acadêmica. Ele nos leva à pergunta: nosso pensar contribui na formação de homens e mulheres que fazem a diferença, que incomodam os donos do poder, que colocam toda sua energia e inteligência a serviço da justiça e da solidariedade?

Que o martírio da UCA, como o de tantos discípulos e tantas discípulas de Jesus ao longo da história, possa ser sementeira de homens e mulheres comprometidos com a construção de um mundo novo, que sua memória revolucionária nos estimule à entrega de nossa vida em tantas formas de serviço àquilo pelo qual Jesus apostou sua vida: o advento do Reino.

 

* Padre Geraldo Luiz De Mori, reitor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), é bacharel em Filosofia (1986) e Teologia (1992) pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus – CES – (Belo Horizonte/MG), atual FAJE; licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1990); mestre (1996) e doutor (2002) em Teologia pelo Centre Sèvres – Facultés Jésuites de Paris (França); e pós-doutorado pelo Institut Catholique de Paris. Publicou, em 2006, pelas Éd. du Cerf: Le temps, énigme des hommes, mystère de Dieu. É também um dos organizadores das obras: Teologia e Ciências da Religião. A caminho da maioridade acadêmica no Brasil (Paulinas, 2011); Religião e Educação para a Cidadania (Paulinas, 2011); Mobilidade Religiosa. Linguagens, juventude, política (Paulinas, 2012); Aragem do Sagrado. Deus na literatura brasileira contemporânea (Loyola, 2012).